sábado

a posição subjetiva do cronista: uma terapêutica

Na crônica, “tudo é vida, tudo é motivo de experiência e reflexão, ou simplesmente de divertimento, de esquecimento momentâneo de nós mesmos a troco do sonho ou da piada que nos transporta ao mundo da imaginação. Para voltarmos mais maduros à vida...” (Antonio Cândido)

Numa crônica intitulada “A Menina sem Estrela”, o escritor pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980), numa espécie de ziguezaguear proustiano, alinhava acontecimentos pessoais e históricos. Inicia lembrando que uma senhora, na missa do dia anterior, o pedira: “Não escreva mais sobre velórios”. No dia seguinte, seu irmão Paulo Rodrigues morria, com toda a família, no desabamento de Laranjeiras. Ele então havia suspendido as Memórias e iria rasgar o texto que escrevera no dia da tempestade, ainda sem saber o que sobreviria. Mas resolve publicar “sem cortar uma vírgula” o que considera “uma meditação fúnebre e desesperada, quase profética”.

Nelson relembra que tempos atrás – “há coisa de uns seis meses” – seu irmão o havia animado a ir ver um filme no cinema, dizendo: “- Não perde um filme que estão levando aí, italiano. Tem um velório genial”. Passa a narrar o “grande momento” do filme, quando o herói morto, cravejado de balas, aparece na mesa do necrotério. Sua mãe o vai encontrar:

“Aquela mãe devoradora começou beijando o dedo grande do pé. Ou por outra: - não beijou apenas, o que seria pouco para a sua fome. Realmente, ela sorvia os dedos, um por um, como aspargos. A boca ativa, insaciável, continuou beijando: - a sola do pé, o calcanhar, as canelas. A imagem, monotonamente descritiva, não deixou escapar nada. Era uma dor violentada, exagerada. A própria tela ampliava tudo, dando a cada esgar uma dimensão miguelangesca”.

Em tom trágico, às vezes irônico, patético mesmo; a crônica prossegue contando o filme, envolvendo-o em suas memórias de infância, sendo Nelson tomado pelo que chama de “novo movimento proustiano, um novo processo regressivo”. Suas crônicas precisam dizer ao leitor os motivos pelos quais este ou aquele acontecimento ganha relevância para ser contado. E, como que para “justificar” os acontecimentos que narra a leitores extemporâneos, e com a indiferença de quem é tomado por um involuntarismo da memória, Nelson Rodrigues ilumina todo um espírito de época – costumes e valores.

Ao assistir o filme e rememorar a infância na rua Alegre (quando em 1917, aos 5 anos de idade, “soube que se morria” ao ver “um rapaz da rua, triste, asmático e cheio de espinhas na cara”, tomar veneno no balcão de uma farmácia e cair morto, por brigar com a noiva), quando um suicida lhe revelou a morte (“foi um suicida que me ensinou a morrer”); é assim, absorvido num acontecimento “qualquer” da vida que Nelson realiza uma espécie de etnografia do entorno, ao modo de crônicas do cotidiano:

“Em 1917, 18, 19, os enterros saíam mesmo de casa. Não era como agora. Agora despacha-se o cadáver pelos fundos. É uma espécie de rapto vergonhoso, como se a morte fosse obscena. Naquele tempo, o sujeito era velado, chorado e florido no próprio ambiente residencial. Tudo era familiar e solidário: - os móveis, os jarros, as toalhas e, até, as moscas. De mais a mais, o enterro atravessava toda a cidade. Milhares de pessoas, no caminho, tiravam o chapéu. Ninguém mais cumprimentado do que o defunto, qualquer defunto. Mas havia o chapéu e repito: - tínhamos o chapéu. Pode parecer pouco, mas é muito. Sei que o nosso tempo não valoriza a morte e a respeita cada vez menos. Por vários motivos e mais este: - falta-nos o instrumento da reverência, que é o chapéu. Era lindo ver toda a cidade cumprimentando um caixão, mesmo de quinta classe. Dirá alguém que a inovação da capelinha mudou tudo. A morte não mais desfila como um préstito. Há capelinhas, dentro e ao lado do cemitério. Mas o chapéu influía, sim, em nossa relação com a vida eterna”.

A mundanidade de Nelson Rodrigues ressoa com uma filosofia do Acontecimento, segundo a qual aquilo que nos acontece é tão impessoal quanto necessário, e se aprofunda em nosso corpo, assim como se livra dele. Dito de outro modo, a história de vida nunca é apenas um acontecimento íntimo e privado:

“É por isso que não há acontecimentos privados e outros coletivos; como não há individual e universal, particularidades e generalidades. Tudo é singular e por isso coletivo e privado ao mesmo tempo, particular e geral, nem individual nem universal. Qual guerra não é assunto privado, inversamente qual ferimento não é de guerra e oriundo da sociedade inteira? Que acontecimento privado não tem todas as suas coordenadas, isto é, todas as suas singularidades impessoais sociais?” (Gilles Deleuze).

Nelson Rodrigues faz da história privada um acontecimento, isto é, transmuta-a num sentido que a refaz e transforma o que havia se dado:

“O brilho, o esplendor do acontecimento, é o sentido. O acontecimento não é o que acontece (acidente), ele é no que acontece o puro expresso que nos dá sinal e nos espera (...) Não se pode dizer nada mais, nunca se disse nada mais: tornar-se digno daquilo que nos ocorre, por conseguinte, querer e capturar o acontecimento, tornar-se o filho de seus próprios acontecimentos e por aí renascer, refazer para si mesmo um nascimento, romper com seu nascimento de carne” (idem).

Memórias que são dele, de sua infância, de sua vida, mas ainda de todos os que se divertem aprendendo sobre os caprichos da alma humana na satisfação ritualística de suas tendências, e na instituição de seu destino. Contar histórias e ao contá-las, contar-se. E refazer o trágico da existência se ocupando na transmutação do acontecimento em aprendizado. Cerzir vida e linguagem, e utilizar esta última para liberar o sujeito aprisionado em sua miséria pessoal, encontrando um mote “universal” com que compartilhar experiências, há de ser terapêutico àquele que sofre.   

pesquisa como sucata

Um lugar com um monte de tralhas de todo tipo: botas de borracha, fogões, laranjas, microscópio, grades... Uma sucata, já viu?

Um pensador francês, Michel de Certeau (1925-1986), escreveu um belo livro em dois tomos, “A invenção do cotidiano” (Ed. Vozes, 2007) - “o esboço de uma teoria das práticas cotidianas”. No primeiro volume, Artes de Fazer, o segundo capítulo é dedicado ao tema “Culturas Populares”. Vale notar, apenas para atiçar sua curiosidade, que o primeiro subtítulo deste capítulo é “Uma arte 'brasileira'”. Mas a parte que quero considerar se diz: “Uma prática de dissimulação: a ‘sucata’”. Certeau delimita seu interesse em “analisar o imenso campo de uma ‘arte de fazer’ diferente dos modelos que reinam (em princípio) de cima para baixo da cultura habilitada pelo ensino (do superior ao primário) e que postulam, todos eles, a constituição de um lugar próprio (um espaço científico ou uma página branca para escrever), independente dos locutores e das circunstâncias”. E então circunscreve um problema político em dupla face: “De uma parte, esta 'arte', em nome do quê a declaramos diferente? De outra, de onde (de que outro lugar) efetuamos sua análise?” (p. 86)

Certeau argumenta sobre diferenças inconciliáveis entre os “praticantes dessas astúcias” e seus analistas; e como aqueles permanecem indiferentes ao lucro (intelectual, profissional, financeiro etc.) que os acadêmicos possam obter de seu estudo.

[retalho incidental: Geertz, imbuído de outra pergunta, mas com uma perspectiva semelhante, traz-nos à questão de “como é possível que antropólogos cheguem a conhecer a maneira como um nativo pensa, sente e percebe o mundo?”. (p. 86) Ao final do capítulo, Geertz conclui: “...seja qual for nossa compreensão – correta ou semicorreta – daquilo que nossos informantes, por assim dizer, realmente são, esta não depende de que tenhamos, nós mesmos, a experiência ou a sensação de estar sendo aceitos, pois esta sensação tem que ver com nossa própria biografia, não com a deles”. (p. 107)]

E então, Certeau indaga:

“... é necessário levar em conta uma urgência: caso não se fique esperando que venha uma revolução transformar as leis da história, como vencer hoje a hierarquização social que organiza o trabalho científico sobre as culturas populares e ali se repete?” (p. 87)

Certeau persegue a trilha das práticas “populares” instigado pelo trapacear do “trabalhador que trabalha com sucata” e subtrai à fábrica tempo, “em vista de um trabalho livre, criativo e precisamente não lucrativo”, e encontraria aí algumas pistas para responder às perguntas que se nos apresentam.

Pensando com Certeau a prática da pesquisa em psicologia, a “sucata” inspiraria uma espécie de “prática desviacionista” no campo. Se o “sucateiro” faz retornar uma ética sócio-política a um sistema econômico com sua prática do desvio ou da dissimulação, pondo em questão o indivíduo abstrato tanto quanto o código de equivalência abstrata (a moeda) do liberalismo, e, através de uma “política do dom”, torna-se também um resistente que acena na favela o sinal de uma outra economia... podemos imaginar uma “prática desviacionista” na maneira de pesquisar que traz os “informantes” à tona, não apenas como vozes transliteradas ao texto, mas escrevendo o próprio texto e participando nas situações acadêmicas e em seus rituais de passagem. A estética fragmentária, bricoleur, diversificada e colorida da sucata, pode ressoar no texto acadêmico através do formato híbrido, nem literatura nem linguagem comunicativa, nem dissertação linear nem puro patchwork de um “diário de campo”; um entre-estilo que misturaria raciocinações teoréticas e teorizações reflexionadas na itinerância.

O caso de as táticas “populares” desviarem para fins próprios a ordem efetiva das coisas, onde se insinuam “um estilo de trocas sociais, um estilo de invenções técnicas, e um estilo de resistência moral, isto é, uma economia do “dom” (de generosidades como revanche [!]), uma estética de “golpes” (de operações de artistas) e uma ética da tenacidade (mil maneiras de negar à ordem estabelecida o estatuto de lei, de sentido ou fatalidade)”, inspira-nos o drible da “boa forma” e da expectativa institucional, na perspectiva da iluminação de zonas até então obscuras (ou virtuais) da estilística acadêmica - e que desde sempre se insinuam, bastando um pouco de tolerância para que se realizem.

Inventar um espaço de jogo na instituição acadêmica a partir da arte da sucata. Como sugere Certeau, um retorno da “ética do prazer e da invenção à instituição científica”:

“No terreno da pesquisa científica (que define a ordem atual do saber), com suas máquinas e graças a seus resíduos, pode-se desviar o tempo devido à instituição; fabricar os objetos textuais que significam uma arte e solidariedades; jogar esse jogo do intercâmbio gratuito, mesmo que castigado pelos patrões e pelos colegas, quando não se limitam a ‘fechar os olhos’; inventar os traçados de convivências e de gestos; responder com um presente a outro dom; subverter assim a lei que, na fábrica científica, coloca o trabalho a serviço da máquina e, na mesma lógica, aniquila progressivamente a exigência de criar e a ‘obrigação de dar’”.

Pode-se depreender de uma “arte da sucata”, seguindo Certeau, a fabricação de táticas de pesquisa que alterem as prescrições abstratas dos manuais de metodologia científica, situando-as num cotidiano pesquisante onde se inventam, reciprocamente, sujeitos, artes de fazer e maneiras de habitar o “campo”:

“Esses estilos de ação intervêm num campo que os regula num primeiro nível..., mas introduz aí uma maneira de tirar partido dele, que obedece a outras regras e constitui como que um segundo nível imbricado no primeiro (é o que acontece com a ‘sucata’)”.




cotidiano e popular

Dez dias em trabalho no Recife, encontrei dois livros inspiradores.

1. “Crônicas do cotidiano: a vida cultural de Pernambuco nos artigos de Gilberto Freyre” (Recife: Diario de Pernambuco, 2009). Segundo sua apresentação (que aliás chama atenção pelos erros de concordância e ortografia), o livro encaderna...

“Uma coletânea que condensa o pensamento do autor acerca dos fatos mais importantes da história de Pernambuco, e, principalmente do Recife, ao longo de praticamente todo o século XX. Trata-se de textos que, dispersos e muitas vezes esquecidos nas coleções de velhos jornais, foram resgatados e disponibilizados para as novas gerações (…) A pesquisa privilegiou a leitura de seletas publicadas pelo autor em edições específicas como o livro Retalhos de Velhos Jornais e Da outra América, valiosas fontes bibliográficas da qual foram extraídos textos das décadas de 20 e 30, mantidos na grafia original. Além da leitura das seletas jornalísticas editadas durante a vida do escritor, a pesquisa foi buscar, ainda, artigos disponíveis na própria Fundação Gilberto Freyre e na Fundação Joaquim Nabuco (…) O processo de garimpagem desse material se deu por meio do destaque nos textos que se concentram nos aspectos culturais e econômicos do Recife e de Pernambuco”.

Na abertura do livro, um artigo da década de 1920, “Um café para o Recife”, o escritor à época com vinte e poucos anos, desfia contra a cidade:

“Estive outro dia a imaginar um café ao meu jeito para o Recife. Café ou confeitaria. Ou mesmo restaurante. Um café ou restaurante ou confeitaria que possuísse cor e característica locais. Que possuísse atmosfera.

É verdade que isso de atmosfera não se improvisa. É como os gramados de Oxford. Os quais levaram séculos a apurar-se. Desaparecido o velho Recife, será talvez impossível enxertar no novo, cuja arquitetura de anjinhos e confeitos não vai conservando o espírito daquele, o café ou restaurante da minha visão.

Há um prêmio a que o Brasil deve concorrer na próxima exposição internacional. É o de devastador do passado. Devastador das próprias tradições. Nós a temos devastado e continuamos a devastá-las com uma perseverança digna de um “Grand Prix”. Com uma fúria superior à dos 'Dadaístas': uns pobres teóricos.
(…)
Ao chegar ao Recife, guloso de cor local, um dos meus primeiros espantos foi justamente numa confeitaria, diante da hesitação de um tio meu em pedir um mate. Talvez não fosse 'chic', o mate. Como não era 'chic' pedir água de côco ou caldo de cana. Talvez até não nos fornecessem mate, como não fornecem nem água de côco nem vinho de jenipapo. Elegâncias. O 'chic' era pedir um desses gelados de nomes exóticos. Esses sim, fazem supor refinamento de gosto. Elegâncias da 'Fox-Film'.” (p. 21).

Não sublinharei o já rebatido tema do descaso com a memória, da empolgação com a novidade e com o estrangeiro, da superficialidade gabola de princesinha do neon que esconjura o antigo como velho e ultrapassado. Tampouco pisarei na movediça poça dos juízos que caracterizam o refinamento do gosto, a elegância, e suas origens “elitizadas”. Peço ao leitor apenas a consideração de se deter um pouco sobre o caso da Atmosfera: “É verdade que isso de atmosfera não se improvisa”, diz Freyre. “É como os gramados de Oxford. Os quais levaram séculos a apurar-se”.

2. “Comedoria Popular: receitas, feiras e mercados do Recife”, de Ana Claudia Frazão (Recife: Editora Brascolor, 2009). Neste, as receitas valem mais do que tudo. Receitas salgadas, receitas doces, receitas complementares, e até um glossário de termos culinários. Há também uma preocupação com a escala cromática dos alimentos, e a autora apresenta as “funções dos alimentos de acordo com suas cores”. Útil é a localização dos mercados e feiras, com endereço, horário de funcionamento e especialidades culinárias.

De brincadeira, listamos um cardápio com a comedoria popular de Fortaleza, cientes de que há muitas variações e diferentes resultados no sabor:

Carneiro cozido ou guizado; galinha torrada ou cozida no leite de côco (esta, na verdade, uma receita de família – também lá havia um livro com esse mote); panelada/ buchada/sarrabulho/rabada/mão-de-vaca com cuzcuz e molho de pimenta no leite; peixe inteiro frito com baião-de-dois, farofa e macaxeira frita; posta de cavala frita com arroz e feijão; peixada; língua de boi ao molho com farofa e arroz ou só tira-gosto; bolinha de peixe; feijão verde com nata, creme de leite, queijo coalho e maxixe; gostosinho (pode ser o pão com carne moída, ou ovo frito, carne moída, arroz e cheiro verde); churrasco (picanha, maminha, linguiça) ou frango assado, com baião-de-dois, macaxeira/bata frita, farofa e vinagrete...

Aprendendo com canibais

1. Levado pelas mãos de Afonso Arinos de Melo Franco fui reencontrar Montaigne (1533-1592), humanista do século XVI que acreditava que “filosofar é aprender a morrer”. Eis alguns aspectos do ensaio “Dos Canibais” (coleção Os Pensadores, Ed. Nova Cultural, 1996), onde discorre a respeito dos povos canibais da América do Sul, ou França Antártica, como chamara Villegaignon.

2. Logo nas primeiras páginas me veio à lembrança a Velha Tatajuba, no litoral cearense, que inspirou o filme “As Vilas Volantes”, do diretor Alexandre Veras (http://www.vimeo.com/15441169). Ali, as dunas movediças tangem as pessoas de lugar em lugar, de tempos em ventos:

“Na região de Médoc, junto ao mar, tem meu irmão, Sr. de Arzac, uma de suas terras enterradas sob as areias que o mar lhe vai jogando em cima. Os telhados de algumas habitações se vêem ainda e essa propriedade e suas culturas transformaram-se em bem magras pastagens. Dizem os habitantes que de uns tempos para cá avança o mar tão rapidamente que já perderam quatro léguas de terras. Essas areias são seus arautos; como uma espécie de dunas movediças precedem-no de cerca de meia légua e conquistam insensivelmente a região” (p. 194).

Por recente, conheci a Nova Tatajuba, e a Natureza se nos impõe como sinal gratuito do sagrado na experiência. Lá conversávamos, numa manhã nascitura, sobre isto que a cidade não pode nunca nos dar...

“Não há razão para que a arte sobrepuje em suas obras a natureza, nossa grande e poderosa mãe. Sobrecarregamos de tal modo a beleza e riqueza de seus produtos com as nossas invenções, que a abafamos completamente. Mas onde permaneceu intata e se mostra como é realmente, ela ridiculariza nossos vãos e frívolos empreendimentos: 'a hera cresce ainda melhor sem cuidados; o medronheiro nunca se apresenta tão belo como nos antros solitários e o canto dos pássaros é assim tão suave porque natural' [Propércio]. (…) Todas as coisas, disse Platão, produzem-nas a natureza ou o acaso, ou a arte. As mais belas e grandes são frutos das duas primeiras causas; as menores e mais imperfeitas, da última”. (p. 195, 196).

3. Uma lição que os modos de vida indígenas nos legou foi o fato de se ocuparem em produzir apenas o suficiente para viver. Os civilizados do Ocidente, por contrário, temos escolhido cultivar a avareza em detrimento da simplicidade. Diz-nos Montaigne que a moral dos canibais se resumia em dois pontos: valentia na guerra e afeição por suas mulheres.

“Lamento que Licurgo e Platão não tenham ouvido falar delas, pois sou de opinião que o que vemos praticarem esses povos, não somente ultrapassa as magníficas descrições que nos deu a poesia da idade de ouro, e tudo o que imaginou como suscetível de realizar a felicidade perfeita sobre a terra, mas também as concepções e aspirações da filosofia. Ninguém concebeu jamais uma simplicidade natural elevada a tal grau, nem ninguém jamais acreditou pudesse a sociedade subsistir com tão poucos artifícios. (…) Não entram em conflito a fim de conquistar novos territórios, porquanto gozam ainda de uma uberdade natural que sem trabalhos nem fadigas lhes fornece tudo de que necessitam e em tal abundância que não teriam motivo para desejar ampliar suas terras. Têm ademais a felicidade de limitar seus desejos ao que exige a satisfação de suas necessidades naturais, tudo o que as excede lhes parecendo supérfluo”. (196-200)

4. Os traços com os quais Montaigne caracteriza o informante que retornara do Novo Mundo e forneceu-lhe as informações, em contraste com “pessoas dotadas de finura”, apresenta, de forma emblemática, os elementos que circunscrevem o (já ultrapassado?) imbróglio da fidedignidade epistemológica do discurso etnográfico: objetividade versus subjetividade.

“O homem que tinha a meu serviço, e que voltava do Novo Mundo, era simples e grosseiro de espírito, o que dá mais valor sobre o seu testemunho. As pessoas dotadas de finura observam melhor e com mais cuidado as coisas, mas comentam o que vêem e, a fim de valorizar sua interpretação e persuadir, não podem deixar de alterar um pouco a verdade. Nunca relatam pura e simplesmente o que viram, e para dar crédito à sua maneira de apreciar, deformam e ampliam os fatos. A informação objetiva nós a temos das pessoas muito escrupulosas ou muito simples, que não tenham imaginação para inventar e justificar suas invenções e igualmente que não sejam sectárias” (p. 194, 195).

5. Por fim, ilustra-nos com clareza o que seria a dogmática e ingênua “visão etnocêntrica”, ao argumentar seu desacordo a chamarem bárbaros ou selvagens a esses povos recém encontrados, vivendo de par com a Natureza:


“... não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos; e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra. E é natural, porque só podemos julgar da verdade e da razão de ser das coisas pelo exemplo e pela ideia dos usos e costumes do país em que vivemos” (p. 195).