Um lugar com um monte de tralhas de todo tipo: botas de borracha,
fogões, laranjas, microscópio, grades... Uma sucata, já viu?
Um pensador francês, Michel de Certeau (1925-1986), escreveu um belo
livro em dois tomos, “A invenção do cotidiano” (Ed. Vozes,
2007) - “o esboço de uma teoria das práticas cotidianas”. No
primeiro volume, Artes de Fazer, o segundo capítulo é dedicado ao
tema “Culturas Populares”. Vale notar, apenas para atiçar sua
curiosidade, que o primeiro subtítulo deste capítulo é “Uma arte
'brasileira'”. Mas a parte que quero considerar se diz: “Uma
prática de dissimulação: a ‘sucata’”. Certeau delimita seu
interesse em “analisar o imenso campo de uma ‘arte de fazer’
diferente dos modelos que reinam (em princípio) de cima para baixo
da cultura habilitada pelo ensino (do superior ao primário) e que
postulam, todos eles, a constituição de um lugar próprio (um
espaço científico ou uma página branca para escrever),
independente dos locutores e das circunstâncias”. E então
circunscreve um problema político em dupla face: “De uma parte,
esta 'arte', em nome do quê a declaramos diferente?
De outra, de onde (de
que outro lugar) efetuamos sua análise?” (p. 86)
Certeau argumenta sobre diferenças inconciliáveis entre os
“praticantes dessas astúcias” e seus analistas; e como aqueles
permanecem indiferentes ao lucro (intelectual, profissional,
financeiro etc.) que os acadêmicos possam obter de seu estudo.
[retalho incidental: Geertz, imbuído de outra pergunta, mas
com uma perspectiva semelhante, traz-nos à questão de “como é
possível que antropólogos cheguem a conhecer a maneira como um
nativo pensa, sente e percebe o mundo?”. (p. 86) Ao final do
capítulo, Geertz conclui: “...seja qual for nossa compreensão –
correta ou semicorreta – daquilo que nossos informantes, por assim
dizer, realmente são, esta não depende de que tenhamos, nós
mesmos, a experiência ou a sensação de estar sendo aceitos, pois
esta sensação tem que ver com nossa própria biografia, não com a
deles”. (p. 107)]
E então, Certeau indaga:
“... é necessário levar em conta uma urgência: caso não se
fique esperando que venha uma revolução transformar as leis da
história, como vencer hoje a hierarquização social que organiza o
trabalho científico sobre as culturas populares e ali se repete?”
(p. 87)
Certeau persegue a trilha das práticas “populares” instigado pelo trapacear do “trabalhador que trabalha com sucata” e subtrai à fábrica tempo, “em vista de um trabalho livre, criativo e precisamente não lucrativo”, e encontraria aí algumas pistas para responder às perguntas que se nos apresentam.
Pensando com Certeau a prática da pesquisa em psicologia, a “sucata” inspiraria uma espécie de “prática desviacionista” no campo. Se o “sucateiro” faz retornar uma ética sócio-política a um sistema econômico com sua prática do desvio ou da dissimulação, pondo em questão o indivíduo abstrato tanto quanto o código de equivalência abstrata (a moeda) do liberalismo, e, através de uma “política do dom”, torna-se também um resistente que acena na favela o sinal de uma outra economia... podemos imaginar uma “prática desviacionista” na maneira de pesquisar que traz os “informantes” à tona, não apenas como vozes transliteradas ao texto, mas escrevendo o próprio texto e participando nas situações acadêmicas e em seus rituais de passagem. A estética fragmentária, bricoleur, diversificada e colorida da sucata, pode ressoar no texto acadêmico através do formato híbrido, nem literatura nem linguagem comunicativa, nem dissertação linear nem puro patchwork de um “diário de campo”; um entre-estilo que misturaria raciocinações teoréticas e teorizações reflexionadas na itinerância.
O caso de as táticas “populares” desviarem para fins próprios a ordem efetiva das coisas, onde se insinuam “um estilo de trocas sociais, um estilo de invenções técnicas, e um estilo de resistência moral, isto é, uma economia do “dom” (de generosidades como revanche [!]), uma estética de “golpes” (de operações de artistas) e uma ética da tenacidade (mil maneiras de negar à ordem estabelecida o estatuto de lei, de sentido ou fatalidade)”, inspira-nos o drible da “boa forma” e da expectativa institucional, na perspectiva da iluminação de zonas até então obscuras (ou virtuais) da estilística acadêmica - e que desde sempre se insinuam, bastando um pouco de tolerância para que se realizem.
Inventar um espaço de jogo na instituição acadêmica a partir da arte da sucata. Como sugere Certeau, um retorno da “ética do prazer e da invenção à instituição científica”:
“No terreno da pesquisa científica (que define a ordem atual do
saber), com suas máquinas e graças a seus resíduos, pode-se
desviar o tempo devido à instituição; fabricar os objetos textuais
que significam uma arte e solidariedades; jogar esse jogo do
intercâmbio gratuito, mesmo que castigado pelos patrões e pelos
colegas, quando não se limitam a ‘fechar os olhos’; inventar os
traçados de convivências e de gestos; responder com um presente a
outro dom; subverter assim a lei que, na fábrica científica, coloca
o trabalho a serviço da máquina e, na mesma lógica, aniquila
progressivamente a exigência de criar e a ‘obrigação de dar’”.
Pode-se depreender de uma “arte da sucata”, seguindo Certeau, a
fabricação de táticas de pesquisa que alterem as prescrições
abstratas dos manuais de metodologia científica, situando-as num
cotidiano pesquisante onde se inventam, reciprocamente, sujeitos,
artes de fazer e maneiras de habitar o “campo”:
“Esses estilos de ação intervêm num campo que os regula num primeiro nível..., mas introduz aí uma maneira de tirar partido dele, que obedece a outras regras e constitui como que um segundo nível imbricado no primeiro (é o que acontece com a ‘sucata’)”.