Em 1959 o advogado Alceu Maynard Araújo recebeu o Prêmio Brasiliana por seu Medicina Rústica. Segundo os editores, a coleção
“Brasiliana” fora fundada para melhor conhecimento do Brasil, e
para “divulgar os vários aspectos da nossa terra”.
O livro de Alceu Maynard Araújo foi selecionado para compor
o volume 300 da Coleção Brasiliana da Editora Nacional, por ser não
somente uma demonstração de cultura, conforme os editores, mas ainda por representar
“esfôrço científico de estudo e compreensão da terra”. Ainda segundo os editores, o que lhes empolgou, desde as primeiras páginas, foi a seriedade e a tenacidade com que o autor pesquisou a fundo o setor que se propôs analisar, mostrando um retrato autêntico do país, “e não resultado dos devaneios de improvisadores”.
A
comissão examinadora fora composta pelos professores Américo
Jacobina Lacombe, Florestan Fernandes, João Fernando de Almeida
Prado (Yan), Paulo Duarte e Sérgio Buarque de Hollanda.
A fonte primeira de Medicina Rústica foi a pesquisa
sociológica realizada no baixo São Francisco pelo autor. Conforme
o próprio, “Medicina Rústica é
o resultado de uma pesquisa realizada por um estudioso, afeito aos
temas folclóricos e que deseja dar sua modesta contribuição à
antropologia social e à medicina como ciência aplicada” (p. 3).
O autor pretendeu “aplainar os
caminhos de compreensão que os muito médicos palmilharão ao entrar
em contacto com as classes destituídas, incultas de nossa sociedade,
quer nas cidades grandes, quer nas zonas rurais brasileiras, para
onde em geral se dirigem os recém-formados”. (idem)
Ressalta que quer fugir, com o presente trabalho, de ser catalogado
entre “os muitos folcloristas que trataram dêste assunto como
sendo 'superstições, exotismos práticas abomináveis'”. Para
Alceu Maynard Araújo, “as práticas da medicina popular necessitam
melhores observações e não podemos destacá-las pura e
simplesmente sem estudar o seu contexto cultural, sem participar da
vida, da interação daqueles que nos deram os informes ou
principalmente os vimos praticando, enfim, vivendo as experiências
por nós anotadas”. (idem)
O autor quer compreender a função social da “medicina popular”
(ou “rústica”, como ele nomeia, em tom algo valorativo),
seus conceitos, teorias, seus praticantes etc., num contexto cultural
específico:
“Jamais poder-se-á esperar que de pronto o caboclo
mude tôda sua cosmologia para aceitar o que lhe determina o médico”,
afirma Maynard Araújo. “Tal é
trabalho moroso e implica noutros problemas a serem resolvidos em
nossa Pátria como o analfabetismo, educação, assistência social,
etc. (...) Além de ser um processo
demorado, exige da parte do médico uma atitude de receptividade e
compreensão de certos fenômenos psicológicos que têm real
importância e auxiliam (…) O que é preciso é que haja uma certa
boa vontade, interêsse (sic) e simpatia para com a experiência do povo.
Cabe ao cientista peneirá-la e não desprezá-la com mofas e
blasonar jactando-se de seus conhecimentos científicos, de seu 'anel
no dedo'. Tal atitude acentua a desconfiança da parte do paciente,
afastando-o do médico, criando barreiras”. (p. 4).
O autor fundamenta seu conselho, lembrando que descobertas revolucionadoras da
medicina nasceram, por acaso, de uma observação:
“A penicilina por exemplo. Há
quanto tempo que o nosso caboclo não vinha colocando a casca de
queijo embolorado sobre as 'feridas brabas ou arruinadas'? Coube,
porém, a Alexandre Fleming a glória de descobri-la. Caso algum
observador, um antropólogo social
ou um 'folclorista tivesse regristrado êsse exotismo', quem sabe há
quantos anos já a penicilina não teria poupado vidas preciosas”.
Maynard Araújo, citando a
Anthropology Today,
transcreve a experiência de Foster, que em seu trabalho fez
observações em oito centros de saúde do México, Colômbia, Peru e
Brasil. Segundo Foster, as críticas mais comuns feitas pela
população aos médicos, e que justificariam sua baixa frequência
aos centros de saúde à época, seriam: “frequente falta de tato
por parte dos doutores, enfermeiros e restante do pessoal; tempo
perdido em ir ao centro; e o fracasso em tratar crianças doentes
quando os exames rotineiros não tivessem sido feitos”. (p. 5)
Porém, o desdém dos médicos quanto às crenças populares não
faziam com que o povo as abandonassem, aderindo ao discurso da
ciência médica. Ao contrário, ainda segundo Foster, “a tendencia
de médicos e enfermeiras de ignorar, até ridicularizar concepções
populares de doenças provàvelmente fortalecida pela crença popular
de que certas categorias de doenças não eram compreendidas e não
podiam ser tratadas por médicos”. (idem)
ALGUNS ASPECTOS DA PESQUISA
Segundo
o autor, a pesquisa foi realizada tanto no meio rural como urbano e
suburbano, sendo que a recolta foi feita no meio urbano nas feiras,
nas bancas dos raizeiros; no suburbano pela participação dos cultos
afro-brasileiros e ameríndio e no rural, quer nas fazendas ou
povoados presentes às festas e cerimônias de cunho religioso, tais
como romarias, procissões, etc.” (p. 7).
A
técnica empregada foi a “observação participante”. Sugere o
autor (para si, feito pesquisador, mas também como postura para o
médico em seu ofício diário), para que o médico estabeleça um
“rapport” com o paciente “que não raro é um adepto das
práticas empíricas, mágicas ou religiosas sobreviventes na cultura
rústica no que concerne à medicina”, que aquele se adestre (termo
do autor) mas disciplinas da metodologia antropológica, “para não
criar resistências ou temores e atingir o alvo colimado”.
A
pesquisa aconteceu na cidade alagoana de Piaçabuçu, “um
agrupamento típico de cultura rústica”. Uma cidade,
“como
milhares de 'cidades' brasileiras, quer no litoral, quer do
'hinterland', onde a cultura rústica está presente, onde o homem
vive da pesca, do pastoreio, da agropecuária ou da agricultura, sob
o ritmo do calendário agrícola, marcando-lhe a época do plantio,
colheita e vacância, onde predomina a economia da mão para a bôca,
o cultivo daquilo que é o suficiente para sua alimentação, vivendo
sob o signo dos santos ou deuses dêsse cosmos religioso, conjunto
não raro formado pelo sincretismo de catolicismo romano, religiões
africanas e indígenas, enfim, catolicismo de 'folk'.”
Piaçabuçu
é "cidade" (aspas do autor):
“onde
a secularização não penetrou fundo, onde a concepção
quantitativa do tempo não controla a vida de seus moradores, onde a
vida industrial é pràticamente nula, não passando de alguns
artesanatos domésticos de mulheres rendeiras ou trançadeiras de
palha de ouricuri ou piri-piri e o comércio está ensaiando os
primeiros passos com a venda de côco ou de arroz e onde o escambo é
corrente, ainda, não se pode encontrar aquêle tipo que marca o modo
de vida urbano, o
tipo ocidental,
caracterizado pelas atividades comerciais (ou industriais) que a
partir do século passado se fixou naquelas 'contas magnas' do colar
litorâneo e nos grandes burgos planaltinos”. (p. 9 e 10).
“A presente monografia procurou realizar uma sondagem em
profundidade esquadrinhando o tecido sócio-cultural de Piaçabuçu
para verificar até onde a saúde e a doença estão entrelaçadas
com as crenças e práticas. Por outro lado, procura ser um auxílio
na compreensão da comunidade e suas reações ao problema médico ou
ao programa de saúde que venha um dia a ser executado nesses ínvios
sertões do Brasil”. (p. 15)
Por fim, assim conclui sua Introdução:
“Maior amplitude terá [a medicina] quando, de mãos dadas, Medicina e
Antropologia Cultural enveredarem positivamente na senda da prevenção
e terapia visando o homem no desempenho de seu papel na sociedade,
integrado, livre das moléstias que o atacam não só como indivíduo,
mas a própria civilização. Nascerá desta aproximação, o que
Medrano chama de Medicina Social ou compreensiva”.
(p. 16).