sábado

cotidiano e popular

Dez dias em trabalho no Recife, encontrei dois livros inspiradores.

1. “Crônicas do cotidiano: a vida cultural de Pernambuco nos artigos de Gilberto Freyre” (Recife: Diario de Pernambuco, 2009). Segundo sua apresentação (que aliás chama atenção pelos erros de concordância e ortografia), o livro encaderna...

“Uma coletânea que condensa o pensamento do autor acerca dos fatos mais importantes da história de Pernambuco, e, principalmente do Recife, ao longo de praticamente todo o século XX. Trata-se de textos que, dispersos e muitas vezes esquecidos nas coleções de velhos jornais, foram resgatados e disponibilizados para as novas gerações (…) A pesquisa privilegiou a leitura de seletas publicadas pelo autor em edições específicas como o livro Retalhos de Velhos Jornais e Da outra América, valiosas fontes bibliográficas da qual foram extraídos textos das décadas de 20 e 30, mantidos na grafia original. Além da leitura das seletas jornalísticas editadas durante a vida do escritor, a pesquisa foi buscar, ainda, artigos disponíveis na própria Fundação Gilberto Freyre e na Fundação Joaquim Nabuco (…) O processo de garimpagem desse material se deu por meio do destaque nos textos que se concentram nos aspectos culturais e econômicos do Recife e de Pernambuco”.

Na abertura do livro, um artigo da década de 1920, “Um café para o Recife”, o escritor à época com vinte e poucos anos, desfia contra a cidade:

“Estive outro dia a imaginar um café ao meu jeito para o Recife. Café ou confeitaria. Ou mesmo restaurante. Um café ou restaurante ou confeitaria que possuísse cor e característica locais. Que possuísse atmosfera.

É verdade que isso de atmosfera não se improvisa. É como os gramados de Oxford. Os quais levaram séculos a apurar-se. Desaparecido o velho Recife, será talvez impossível enxertar no novo, cuja arquitetura de anjinhos e confeitos não vai conservando o espírito daquele, o café ou restaurante da minha visão.

Há um prêmio a que o Brasil deve concorrer na próxima exposição internacional. É o de devastador do passado. Devastador das próprias tradições. Nós a temos devastado e continuamos a devastá-las com uma perseverança digna de um “Grand Prix”. Com uma fúria superior à dos 'Dadaístas': uns pobres teóricos.
(…)
Ao chegar ao Recife, guloso de cor local, um dos meus primeiros espantos foi justamente numa confeitaria, diante da hesitação de um tio meu em pedir um mate. Talvez não fosse 'chic', o mate. Como não era 'chic' pedir água de côco ou caldo de cana. Talvez até não nos fornecessem mate, como não fornecem nem água de côco nem vinho de jenipapo. Elegâncias. O 'chic' era pedir um desses gelados de nomes exóticos. Esses sim, fazem supor refinamento de gosto. Elegâncias da 'Fox-Film'.” (p. 21).

Não sublinharei o já rebatido tema do descaso com a memória, da empolgação com a novidade e com o estrangeiro, da superficialidade gabola de princesinha do neon que esconjura o antigo como velho e ultrapassado. Tampouco pisarei na movediça poça dos juízos que caracterizam o refinamento do gosto, a elegância, e suas origens “elitizadas”. Peço ao leitor apenas a consideração de se deter um pouco sobre o caso da Atmosfera: “É verdade que isso de atmosfera não se improvisa”, diz Freyre. “É como os gramados de Oxford. Os quais levaram séculos a apurar-se”.

2. “Comedoria Popular: receitas, feiras e mercados do Recife”, de Ana Claudia Frazão (Recife: Editora Brascolor, 2009). Neste, as receitas valem mais do que tudo. Receitas salgadas, receitas doces, receitas complementares, e até um glossário de termos culinários. Há também uma preocupação com a escala cromática dos alimentos, e a autora apresenta as “funções dos alimentos de acordo com suas cores”. Útil é a localização dos mercados e feiras, com endereço, horário de funcionamento e especialidades culinárias.

De brincadeira, listamos um cardápio com a comedoria popular de Fortaleza, cientes de que há muitas variações e diferentes resultados no sabor:

Carneiro cozido ou guizado; galinha torrada ou cozida no leite de côco (esta, na verdade, uma receita de família – também lá havia um livro com esse mote); panelada/ buchada/sarrabulho/rabada/mão-de-vaca com cuzcuz e molho de pimenta no leite; peixe inteiro frito com baião-de-dois, farofa e macaxeira frita; posta de cavala frita com arroz e feijão; peixada; língua de boi ao molho com farofa e arroz ou só tira-gosto; bolinha de peixe; feijão verde com nata, creme de leite, queijo coalho e maxixe; gostosinho (pode ser o pão com carne moída, ou ovo frito, carne moída, arroz e cheiro verde); churrasco (picanha, maminha, linguiça) ou frango assado, com baião-de-dois, macaxeira/bata frita, farofa e vinagrete...