domingo

o psicólogo clínico


Roudinesco, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
Terceira Parte: “O futuro da psicanálise”
Capítulo 4: “Crítica das instituições psicanalíticas” (pp. 150-163)


“Se os pacientes mudaram, os psicanalistas das novas gerações também não se parecem com os mais velhos. A esse respeito, há menos diferença do que antigamente entre os lacanianos e os outros freudianos. Todos fizeram os mesmos estudos de psicologia e muitos exercem outra atividade que não a de psicanalistas: em geral, são psicólogos clínicos. Seja qual for o grupo a que pertencem, têm poucos pacientes particulares e trabalham principalmente em instituições onde utilizam outras técnicas: psicodrama, psicoterapia familiar e de grupo. Todos exercem funções nos serviços de saúde: assistência a toxicômanos, prostitutas, delinquentes, doentes de AIDS, cuidados paliativos etc.

(…)

Apesar de todas as dificuldades com que se vê confrontada, esta geração aspira a uma renovação do freudismo. Mais próximos que os mais velhos da miséria social, com a qual se deparam em campo, os jovens são também mais pragmáticos, mais diretos, mais humanistas, mais sensíveis a todas as formas de exclusão e mais exigentes em suas escolhas éticas.

(…)

Menos teóricos e mais clínicos, manifestam uma abertura maior para todas as formas de psicoterapia, muito embora adotem a psicanálise como modelo de referência, mas sem se submeterem à autoridade de uma escola...”. (pp. 161-62).


esquizoanálise e antropofagia


"Arriscarei uma hipótese: a concepção de subjetividade de Deleuze e Guattari, implicada em sua teoria da clínica (a qual, por vezes, eles chamaram de “esquizoanálise”), faria eco a um dos princípios constitutivos das subjetividades no Brasil. Chamarei esse princípio de “antropofágico”, trazendo para a esfera da subjetividade, e reinterpretando, aquilo que o Movimento Antropofágico apontou no domínio da estética e da cultura brasileiras.

(...)


Estendido para o domínio da subjetividade, o princípio antropofágico poderia ser assim descrito: engolir o outro, sobretudo o outro admirado, de forma que partículas do universo desse outro se misturem às que já povoam a subjetividade do antropófago e, na invisível química dessa mistura, se produza uma verdadeira transmutação. Constituídos por esse princípio, os brasileiros seriam, em última instância, aquilo que os separa incessantemente de si mesmos. Em suma, a antropogafia é todo o contrário de uma imagem identitária". (Suely Rolnik)

[Texto na íntegra: Esquizoanálise e Antropofagia]

sábado

o Antropófago e Freud



A crise da cultura, vinculada à entrada dos processos de modernização e urbanização das cidades e à busca do que era o Brasil como nação independente, data de pouco mais de um século. Quando esta se instala, a verdade, tal como ela havia sido afirmada pela tradição européia enquanto o Brasil era apenas seu apêndice, bem como o sujeito nela escorado, começam a ser destituídos, dando lugar a um sujeito dilacerado pela multiplicidade e pela incerteza, e por isso mesmo capaz de instituir uma nova estética relacionada a verdades agora inventadas e nunca definitivas.

Pela primeira vez na história do país, desconfia-se da razão, da consciência, da idéia de progresso e de civilização, tradições trazidas pelas caravelas. Passam a ser objeto de interpretação e deciframento permanentes não apenas o que nos foi legado como herança pela Europa, mas também, agora, as heranças indígenas e negras, bem como a resultante de suas infinitas misturas. É neste caldo cultural que as obras de Freud, Marx e Nietzsche introduzem-se como fonte de interesse crescente, uma vez que apontam justamente para a precariedade do discurso da consciência e da verdade – isto é, possibilitam pensar formas alternativas de civilização, para além daquela tomada como única – ou pelo menos, hegemônica - desde o descobrimento.


“E aqui chegamos a uma terceira figura que ligada a Nietzsche e Marx vem escancarando os abismos apocalípticos que engulirão o mundo do patriarcado (...) – Freud. (...) Os três homens (gênios) poderão indicar o verdadeiro caminho da (...) autenticidade e (da...) derrocada da exploração patriarcal”. (ANDRADE, O., 1929).


Os modernistas, à frente de tal ruptura, apesar de reconhecerem os avanços técnicos que facilitavam a vida do homem moderno, passaram a levar em consideração o alto preço das exigências civilizatórias ocidentais para a sexualidade e para a singularidade, ao mesmo tempo em que denunciaram a fragilidade dos códigos de verdade fundamentados na ciência e na razão.


Para dar consistência a tal posicionamento, eles buscaram destacar os conceitos freudianos que poderiam servir de auxílio para a crítica à civilização ocidental. A substituição do idealismo herdado do lusitanismo, da tradição católica e do romantismo pelo inconsciente freudiano servia à proposta de libertar os mais diferentes recalques históricos, sociais, estéticos e étnicos do país. Dito de outro modo, a geração de 1920 valorizou no Brasil e nos brasileiros o que fora até então depreciado pelo pensamento intelectual. Assim, a psicanálise pôde ser utilizada como instrumento crítico para auxiliá-los a dar voz a formas subjetivas que o racionalismo, o cientificismo e a moral católica haviam sacrificado.

Vale ainda sublinhar que, nessa apropriação, a psicanálise foi ganhando novas tonalidades, sendo utilizada de maneira bastante diversa do que a psiquiatria a estava utilizando no contexto da saúde e higiene mental: o inconsciente e suas relações com o primitivo no psiquismo, considerado excluído de influência da civilização, foram metaforizados no homem dos afetos, dos desejos, dos sentidos e das sensações e referidos ao brasileiro e à sua sexualidade; o inconsciente freudiano e suas relações com o sonho foram dirigidos para o lírico, a associação livre, a mínima palavra-coisa que pudesse oferecer o estranhamento capaz de fazer eclodir o novo; a idéia de que a infância e a pré-história seriam pontos fundamentais na genealogia do sujeito foi transformada na consideração da pré-história do Brasil, logicamente anterior ou externa à cultura imposta como fonte de descobertas a serem feitas para que se constituísse o brasileiro apropriado de si mesmo”.

[Facchinetti, CristianaTexto na íntegra: O Antropófago e Freud]

os medicamentos do espírito

Resenha: Roudinesco, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
Primeira Parte: A sociedade depressiva
Capítulo 2: Os medicamentos do espírito (pp. 21-31)


“A partir de 1950, as substâncias químicas – ou psicotrópicos – modificaram a paisagem da loucura (…) Embora não curem nenhuma doença mental ou nervosa, elas revolucionaram as representações do psiquismo, fabricando um novo homem, polido e sem humor, esgotado pela evitação de suas paixões, envergonhado por não ser conforme ao ideal que lhe é proposto”.


Segundo Roudinesco, os psicotrópicos receitados, tanto por clínicos gerais quanto pelos especialistas em psicopatologia, teriam o efeito de normalizar comportamentos e eliminar os sintomas mais dolorosos do sofrimento psíquico, sem, no entanto, buscar-lhes a significação.

A autora pondera que, a princípio, a redoma medicamentosa inventada pela psicofarmacologia deu ao homem uma recuperação da liberdade. Permitiram a reintegração do louco na cidade, os tratamentos bárbaros e ineficazes teriam sido abandonados, bem como, aos neuróticos e deprimidos, trouxeram uma tranquilidade maior. Entanto, apesar da sua impressionante eficácia, a psicofarmacologia teria perdido seu prestígio:

“Na verdade, ela encerrou o sujeito numa nova alienação ao pretender curá-lo da própria essência da condição humana. Por isso, através de suas ilusões, alimentou um novo irracionalismo. É que, quanto mais se promete o “fim” do sofrimento psíquico através da ingestão de pílulas, que nunca fazem mais que suspender sintomas ou transformar uma personalidade, mais o sujeito, decepcionado, volta-se em seguida para tratamentos corporais ou mágicos”. (p. 22).

Roudinesco, para denunciar os excessos da psicofarmacologia, reproduz citações de psiquiatras que outrora a enalteceram mas que hoje reivindicam que os remédios da mente sejam administrados de maneira mais racional e em coordenação com outras formas de tratamento, como a psicanálise e a psicoterapia. Cita Jean Delay, principal representante francês da psiquiatria biológica que, em 1956, teria afirmado: “Convém lembrar que, em psiquiatria, os medicamentos nunca são mais do que um momento do tratamento de uma doença mental, e que o tratamento básico continua a ser a psicoterapia”. Outro, Henri Laborit, inventor desses medicamentos, teria dito:

“Por que ficamos contentes por dispor de psicotrópicos? Porque a sociedade em que vivemos é insuportável. As pessoas não conseguem mais dormir, ficam angustiadas e necessitam ser tranquilizadas, mais nas megalópoles do que noutros lugares (…) Sem os psicotrópicos, talvez tivesse havido uma revolução na consciência humana, dizendo: 'Não podemos mais suportar isso!' Mas foi possível continuar a suportá-lo, graças aos psicotrópicos.” (p. 23)

Apesar dessas constatações, a psicofarmacologia teria se tornado, segundo a autora, o “estandarte de uma espécie de imperialismo”. Através da psicofarmacologia, os médicos estariam tratando psicoses, neuroses, fobias, melancolias e depressões de maneira indiscriminada, “como um punhado de estados ansiosos, decorrentes de lutos, crises de pânico passageiras, ou de um nervosismo extremo, devido a um ambiente difícil”. Daí que os psicotrópicos, conforme Édouard Zarifian, seriam o “símbolo da ciência triunfante”, simbolizando “a vitória do pragmatismo e do materialismo sobre as enevoadas elucubrações psicológicas e filosóficas que tentavam definir o homem”.

E o que a “ideologia medicamentosa” das sociedades democrático-liberais modernas desejaria debelar? Justo traços constitutivos e essenciais da própria condição humana: a angústia, o conflito, o luto, a tristeza, a desilusão...:

“Nos países democráticos, tudo se passa como se já não fosse possível haver nenhuma rebelião, como se a própria ideia de subversão social ou intelectual se houvesse tornado ilusória, como se o conformismo e o higienismo próprios da nova barbárie do biopoder* tivessem ganho a partida. Daí a tristeza da alma e a impotência do sexo, daí o paradigma da depressão”. (p. 25)

Considerando que “a reivindicação de uma norma prevaleceu sobre a valorização do conflito”, a autora passa a demonstrar como a psicanálise vem perdendo sua força de subversão após haver contribuído, “ao longo do século XX, não apenas para a emancipação das mulheres e das minorias oprimidas, mas para a invenção de novas formas de liberdade”. Roudinesco relembra que foi atribuído a uma mulher, Anna O., e não a um cientista, a invenção do método psicanalítico: “um tratamento baseado na fala, um tratamento em que o fato de se verbalizar o sofrimento, de encontrar palavras para expressá-lo, permite, se não curá-lo, ao menos tomar consciência de sua origem e, portanto, assumi-lo”.

Entretanto, apesar de sua potência de subversão, e considerando que o medicamento em si não se opõe a um tratamento pela fala, a psicanálise estaria sendo colocada em concorrência com a farmacologia; sendo utilizada, ela mesma, como uma pílula. E se isto ocorre, segundo Roudinesco, seria porque “os próprios pacientes, submetidos à barbárie da biopolítica, passaram a exigir que seus sintomas psíquicos tenham uma causalidade orgânica.” (p. 29)

Nesse contexto, a própria medicina também estaria respondendo ao paradigma da depressão, contribuindo assim para romper a essência da vida humana:

“Entre o medo da desordem e a valorização de uma competitividade baseada unicamente no sucesso material, muitos são os sujeitos que preferem entregar-se voluntariamente a substâncias químicas a falar de seus sofrimentos íntimos. O poder dos remédios do espírito, portanto, é o sintoma de uma modernidade que tende a abolir no homem não apenas o desejo de liberdade, mas também a própria ideia de enfrentar a prova dele. O silêncio então passa a ser preferível à linguagem, fonte de angústia e vergonha”. (p. 30)

Nesse estado de coisas, nem os médicos escapariam. Muitos deles não estariam em melhores condições do que seus pacientes: “Inquietos, insatisfeitos, atormentados pelos laboratórios e impotentes para curar, ou, pelo menos, para escutar uma dor psíquica que os transcende cotidianamente, parecem não ter outra solução senão atender à demanda maciça de psicotrópicos”.

"Quem se atreveria a culpá-los?", conclui Roudinesco.


* Michel Foucault deu o nome de biopoder a uma política que pretende governar o corpo e a mente em nome de uma biologia erigida em sistema totalizante, e que assume o lugar da religião. Ver Michel Foucault, “É preciso defender a sociedade”, in Resumo dos cursos do Collège de France (1970-1982), Rio de Janeiro, Zahar, 1997. (N. A.)

sexta-feira

a derrota do sujeito

Resenha: Roudinesco, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
Primeira Parte: “A sociedade depressiva”
Capítulo 1: “A derrota do sujeito” (pp. 12-20)



“Por que consagrar tanto tempo ao tratamento pela fala quando os remédios, ao agirem diretamente sobre os sintomas das doenças mentais e nervosas, dão resultados mais imediatos?”. Lendo essas palavras, pode-se entrever, já na orelha do livro de Elisabeth Roudinesco – a famosa historiadora e psicanalista francesa, articulista do Monde des Livres; pode-se entrever o umbigo ao redor do qual se desfiará a primeira parte de “Por que a psicanálise?”.


Com a expressão “a sociedade depressiva” feito rótulo, Roudinesco lança um diagnóstico sobre o ar do tempo, sobre o “hoje em dia...”, na primeira parte do livro. Com o objetivo claro de proclamar uma defesa à psicanálise, segundo ela “tão violentamente atacada hoje em dia pelos que pretendem substituí-la por tratamentos químicos, julgados mais eficazes porque atingiram as chamadas causas cerebrais das dilacerações da alma”; Roudinesco deve enfrentar um rosário de questões candentes – entre outras, os aspectos sociais e políticos que emolduram a permanente tensão entre práticas culturais e discursos e práticas científicas quanto à legitimidade de suas existências no campo dos “saberes da alma”.

Segundo a autora, o “sofrimento psíquico manifesta-se atualmente sob a forma da depressão (…) essa estranha síndrome em que se misturam a tristeza e a apatia, a busca da identidade e o culto de si mesmo”. Nesse contexto, o homem deprimido não acreditaria mais na validade de nenhuma terapia. No entanto, prosseguiria, antes de rejeitar todos os tratamentos, na busca desesperada para vencer o vazio de seu desejo. Passaria de uma ciência a outra “sem se dar tempo de refletir sobre a origem de sua infelicidade”, pois já não teria tempo para nada, “à medida que se alongam o tempo de vida e do lazer, o tempo do desemprego e o tempo do tédio. O indivíduo depressivo sofre ainda mais com as liberdades conquistadas por já não saber como utilizá-las”.

Apesar da reivindicação individualista da diferença nas sociedades liberais e democráticas, quando se trata das prescrições farmacológicas e dos comportamentos ligados ao sofrimento psíquico, diz Roudinesco:

“Cada paciente é tratado como um ser anônimo, pertencente a uma totalidade orgânica. Imerso numa massa em que todos são criados à imagem de um clone, ele vê ser-lhe receitada a mesma gama de medicamentos, seja qual for o seu sintoma. Ao mesmo tempo, no entanto, busca outra saída para o seu infortúnio. De um lado, entrega-se à medicina científica, e de outro, aspira a uma terapia que julga mais apropriada para o reconhecimento de sua identidade”. (p. 14)

Ainda se ocupando com um diagnóstico do presente (ressalte-se que a primeira edição, francesa, data do ano de 1999), ou, mais precisamente com a autora, da “sociedade democrática moderna”, Roudinesco afirma que tal sociedade pretenderia “banir de seu horizonte a realidade do infortúnio, da morte e da violência”, bem como tentaria “abolir a ideia de conflito social”, em nome da globalização e do sucesso econômico. Teríamos passado da era do confronto para a “era da evitação”:

“Emancipado das proibições pela igualdade de direitos e pelo nivelamento de condições, o deprimido deste fim de século é herdeiro de uma dependência viciada do mundo. Condenado ao esgotamento pela falta de uma perspectiva revolucionária, ele busca na droga ou na religiosidade, no higienismo ou no culto de um corpo perfeito o ideal de uma felicidade impossível”. (p. 19)

Considerando esse estado de coisas feito pano de fundo a autora extrai um princípio constitutivo das concepções de norma e patologia em voga: “...todo indivíduo tem o direito e, portanto, o dever de não mais manifestar seu sofrimento, de não mais se entusiasmar com o menor ideal que não seja o do pacifismo ou o da moral humanitária”.

Segundo a autora, com a valorização dos processos psicológicos de normalização, a imagem de subjetividade característica do advento das sociedades democráticas, que teria sido imaginarizada pelo constructo freudiano do aparelho psíquico – segundo o qual um sujeito imerso no inconsciente, dilacerado por uma consciência pesada, entregue a suas pulsões pela morte de Deus, sempre em guerra consigo mesmo –, tal imagem de sujeito está em franco desaparecimento. Essa ideia de subjetividade, baseada no confronto permanente entre o mesmo e o outro, tenderia a se apagar da organização mental contemporânea “em prol da noção psicológica de personalidade depressiva”.

A situação descrita acima sugere, para Roudinesco, a substituição do paradigma da histeria para o da depressão (forma atenuada da antiga melancolia), com a seguinte significação social:

“O crescente sucesso dessa designação [depressão] deixa bem claro que as sociedades democráticas do fim do século XX deixaram de privilegiar o conflito como núcleo normativo da formação subjetiva. Em outras palavras, a concepção freudiana de um sujeito do inconsciente, consciente de sua liberdade, mas atormentado pelo sexo, pela morte e pela proibição, foi substituída pela concepção mais psicológica de um indivíduo depressivo, que foge de seu inconsciente e está preocupado em retirar de si a essência de todo conflito”. (p. 19)

Segundo a autora, às vésperas do terceiro milênio a depressão teria se tornado a epidemia psíquica das sociedades democráticas, “ao mesmo tempo que se multiplicam os tratamentos para oferecer a cada consumidor uma solução honrosa”. E conclui:

Mas, que medicamentos do espírito será preciso inventar, no futuro, para tratar da dependência dos que se houverem “curado” de seu alcoolismo, seu tabagismo ou algum outro vício (o sexo, a comida, o esporte etc.), substituindo um abuso por outro?”. (p. 20)


epistemologia à brasileira



Epistemologia da Ciência não seria um assunto fácil se abordado apenas do ponto de vista dos clássicos, por exemplo: Bachelard (1884-1962), Popper (1902-1994), Canguilhem (1904-1995), Foucault (1926-1984). No terceiro semestre do curso de psicologia utilizamos, a guisa de introdução, os conhecidos textos de Hilton Japiassu em “Introdução ao pensamento epistemológico”. E bordamos o campo com textos que tratam os problemas relativos à legitimidade dos conhecimentos científicos de modo oblíquo, ou num campo híbrido; hibridismo que em verdade seria o mote originário da própria epistemologia: a distinção entre ciência e saber.


Optamos por uma história social das artes e ofícios de curar no Brasil, uma coletânea de artigos publicada pela Editora da Unicamp, resultantes de “pesquisas recentes sobre práticas de cura no Brasil, do século XVII ate o início do século XX”, vinculadas ao Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (CECULT / IFCH-Unicamp). Servindo-nos do capítulo “Medicinas Secretas: magia e ciência no Brasil setecentista”, conversamos a respeito das “medicinas secretas” do século XVIII, que “eram remédios singulares cujos componentes não se revelavam”, e seus protagonistas: barbeiros e sangradores, curandeiros e pajés, boticários e receitistas, que, sempre ao lado de cientistas, literatos e médicos, disputavam a legitimidade social de suas práticas e discursos a partir de diferentes concepções de doença e saúde aos pacientes. Falamos ainda da “magia natural”, e da apropriação dos aspectos mais tradicionais da alquimia pela visão científica do mundo, até chegar aos pressupostos que orientam a nosografia dos distúrbios mentais segundo o modelo biomédico científico.

Alternamos as discussões com a problematização poética de Michel Serres em “Filosofia Mestiça”, com suas contundentes críticas à razão moderna: “Real ou imperial, quem detém o poder só encontra de fato, no espaço, obediência à sua potência, portanto, à sua lei: o poder não se desloca. E, quando o faz, avança sobre um tapete vermelho. Assim, a razão só encontra a sua regra debaixo dos seus pés”. Em sua parábola “Laicidade”, com que abre o referido livro, Serres desnuda a pretensão do rei Arlequim que, de volta de uma inspeção às terras lunares, informa a um público na expectativa de grandes extravagâncias, que nada há de novo nos lugares extraordinários que visitou: “em toda parte tudo é como aqui, em tudo idêntico ao que se pode ver comumente sobre o globo terráqueo”. O rei, uma metáfora da ciência e da razão, não tolera as misturas, as “impurezas” das experiências que ponham em cheque seu poder soberano. Entanto, provocado por “algum belo e maldoso espírito” na platéia, Arlequim é obrigado a mostrar sua capa, “feita de pedaços, de trapos de todos os tamanhos, mil formas e cores variadas, de idades diversas, de proveniências diferentes, mal alinhavados, justapostos sem harmonia, sem nenhuma atenção às combinações, remendados segundos as circunstâncias, à medida das necessidades, dos acidentes e das contingências”. E tanto mais é fustigado pela platéia, mais se despe e nunca chega ao último traje. “Quando cai o último véu, diz-nos Serres, o segredo se liberta, tao complicado como o conjunto de barreiras que o protegiam. Até mesmo a pele de Arlequim desmente a unidade pretendida por suas palavras. Também ela é um casaco de Arlequim”.

Sem dúvida, metáfora adequada à situação esquizo, não apenas das ciências em geral, quanto da psicologia científica em particular. Desde as origens composta por discursos e práticas oriundos de lugares diversos, que foram (e continuam) convergindo num patchwork identificado como “Psicologia”, o que este campo assume como próprio é justo sua mestiçagem (entre práticas, discursos e processos de subjetivação).

O rei está nu. Agora Pierrô desvendado e entregue sem defesa à intuição (M. Serres). E estamos certos de que tudo cala, frente ao fato de que o rei é mais bonito nu (C. Veloso).      

quarta-feira

"A crise da filosofia messiânica" In


ANDRADE, Oswald de. A utopia antropofágica. 4 ed. São Paulo: Globo, 2011.

"Porque, enfim, é a seguinte a formulação essencial do homem como problema e como realidade:

           1o. Termo: tese - o homem natural
           2o. Termo: antítese - o homem civilizado
           3o. Termo: síntese - o homem natural tecnicizado

Vivemos em estado de negatividade, eis o real. Vivemos no segundo termo dialético da nossa equação fundamental". (p. 141)

aprendizado: abertura para o outro


SERRES, Michel. Filosofia mestiça = Le tiers-instruit. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.



“... nenhuma ciência ou disciplina tem sentido se não se abre para o que lhe é exterior (…) Os ruídos, os desvios, as imperfeições da experiência integram, legitimamente, o processo de conhecimento” (orelha do livro).

histórias dos paulistas


HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

domingo

"Medicinas secretas: magia e ciência no Brasil setecentista" In


Artes e ofícios de curar no Brasil: capítulos de história social. Sidney Chalhoub et al. (org.) - Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.


"As tentativas de estabelecer o discurso científico como única verdade possível, desde pelo menos meados do século XIX,  estão intimamente relacionadas ao desenvolvimento da sociedade capitalista e aos esforços dos grupos economicamente poderosos do país para manter suas posições de controle e privilégio. (...)
    Nesse contexto, as mais variadas práticas de cura, diferentes da medicina médica, serão igualmente tachadas de charlatanismo pelos cientistas. Seus praticantes, considerados bárbaros e atrasados, caminhariam na contramão do progresso e da civilização tão almejada para os trópicos,  em diálogo com modelos de países europeus". (Apresentação do livro pelos organizadores).

linguagem médica popular



São Paulo, Fernando. Linguagem médica popular no Brasil. Salvador, Ba: Editora Itapuã, 1969.


"Já nos hospitais em que efetua seu aprendizado, o aluno [de medicina] amiúde depara doentes que utilizam vozes singulares para se exprimirem quanto às suas queixas, à sua história, aos respectivos antecedentes. Mas o estudante, no viver descuidado que lhe é característico, desatende a êste precioso pormenor do seu meio e da sua gente, e não o valoriza a preceito. E depois, amanhecida para êle a vida profissional, ei-lo face a face das dúvidas iniciais, das hesitações inerentes aos primeiros exercícios do seu mister, avolumadas pela contribuição do linguajar do povo". (Introdução).

psiquiatria e umbanda


Mediação, cultura e política. Gilberto Velho e Karina Kuschnir (orgs.) - Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.

"Psicologia e cultura na perspectiva histórica"

Resenha: Psicologia e cultura na perspectiva histórica (Marina Massimi, Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto), em: http://migre.me/gTisa. Acesso: 05/12/2013).


O artigo de Marina Massimi parte da premissa que a história dos saberes psicológicos na cultura brasileira, por proporcionar uma melhor fundamentação cultural e social da psicologia, pode contribuir na compreensão da relação entre psicologia e cultura. O seu objetivo é argumentar a favor da “exigência de uma ampliação do que se entende por conhecimento psicológico, não apenas se incluindo neste domínio o saber psicológico de natureza científica, mas também o saber psicológico inerente à cultura”.

Massimi inicia sublinhando a necessidade de esclarecer “de que modo a psicologia contemporânea posiciona-se diante da cultura”. Para tanto, escolhe dois autores que considera marcantes na formação dos psicólogos no Brasil, cujas teorias se constituiriam em perspectivas de referência imprescindíveis para a psicologia atual: Skinner e Freud.

Skinner, segundo a autora, assumiria como pressuposto para sua concepção de cultura o esquema metodológico e a visão de mundo próprios às ciências naturais num determinado período de sua história:

“Assim, é possível entender os processos culturais de modo análogo aos experimentos planejados em laboratório (daqui derivando a categoria de “planejamento cultural”); e também, de acordo com uma concepção determinista na qual existem as variáveis ambientais predispostas pelas agências de controle que constroem, então, a cultura. Desta forma, a cultura é produto fabricado pelas agências de poder – social, político, econômico e religioso –, e, evidentemente, pode ser um instrumento de controle por elas utilizado.”

Nesse contexto, segundo Massimi, para Skinner:

“a ciência (ou menos genericamente, a comunidade científica) e o indivíduo são concebidos como os critérios últimos de juízo. A comunidade dos cientistas é tida como a única instância capaz de um planejamento cultural adequado para garantir a sobrevivência da espécie humana. Desse modo, a posição de Skinner evidencia e realiza o projeto positivista da ciência do homem concebida em bases naturalistas."

No recorte que faz da perspectiva freudiana sobre a cultura, a autora informa que se poderia defini-la, conforme Freud, como “fruto do processo de sublimação dos desejos”. O que significaria:

“... uma definição de cultura elaborada dentro de um referencial e de categorias preconcebidas no contexto da teoria psicanalítica. Ou seja, restritas ao âmbito do discurso psicológico: “a sublimação dos desejos reprimidos” seria, de fato, o dinamismo psíquico (causa) da produção cultural (efeito). Ainda é no âmbito do puro psicológico que se define o que é cultura, sendo que está, ultimamente, subordinada à ciência, à sua linguagem e aos seus métodos.”

Ainda segundo Massimi:

“A relação entre cultura e psicologia é definida por Freud no âmbito de uma concepção da psicanálise como ciência humana determinista. Dessa forma, é com base nas categorias psicanalíticas que Freud propõe-se a explicar a gênese da cultura. Existe aqui uma prioridade implícita: a psicanálise é uma ciência e como tal, cabe-lhe explicar a cultura.”

A autora, portanto, sugere desconfiança quanto à legitimidade da prerrogativa dos discursos psicológicos, segundo ela “científicos” (seria o caso da psicanálise?), de explicar a cultura, o que, por consequência, acarretaria a subordinação desta àquela.

A partir de então, para problematizar o status superior da ciência em relação à cultura, apontando a precedência desta face àquela, alia-se a autora àquele filósofo tido como fundador da fenomenologia, Edmund Husserl (1859-1938). Segundo Massimi, apoiando-se em Husserl, o que estaria em questão não seria a cientificidade das ciências mas “o que as ciências e a ciência em geral significaram e podem significar para a existência humana”. E nesse contexto, o campo dos significados (pertencentes ao âmbito da cultura) precederia o das ciências. E a cultura, pertencente ao mundo-da-vida, que tem vários níveis, englobaria, entre esses, o nível da ciência.

Porém, segundo Massimi, na segunda metade do século XIX, ocorrera uma reviravolta e as ciências positivas teriam passado a determinar a visão de mundo do homem moderno; fato que, segundo a autora, teria implicado em “considerar com indiferença as questões que são decisivas para a autêntica humanidade”:

“As questões que elas [as ciências positivas] excluem por princípio são exatamente aquelas que são as mais urgentes para a nossa época desgraçada cuja humanidade é abandonada aos altos e paixões do destino: são estas as questões que dizem respeito ao sentido ou à ausência de sentido de toda esta existência humana.” (Massimi apud Husserl)

Além de Husserl, Massimi convoca um dos expoentes da Escola de Frankfurt, Max Horkheimer (1895-1973), em sua argumentação crítica quanto “ao enfraquecimento da cultura em prol da afirmação da “razão instrumental” da ciência e da tecnologia – voltadas para o domínio sobre o mundo natural e humano (Modernidade). Segundo Massimi, Horkheimer apontaria para a incapacidade da razão moderna em conceber a totalidade e relacionar-se com ela, o que resultaria na renúncia da verdade:

“A dissociação entre exigências humanas e verdade objetiva modificou os critérios de juízo em todos os campos da existência. (…) Neste sentido, segundo Horkheimer, somente o restabelecimento de um horizonte unitário e global pode curar o adoecimento da humanidade contemporânea. Com efeito, as culturas humanas não podem renunciar à sua universalidade que se sustenta na busca da verdade, sua essência constitutiva. A renúncia à exigência da verdade numa cultura acarretaria seu progressivo enfraquecimento e morte.”

Considerando as duas posições filosóficas supracitadas, Massimi considera urgente “pensar outras modalidades de interação entre psicologia e cultura capazes de superar o erro apontado por Husserl e por Horkheimer”:

“A questão é urgente pelas conseqüências que este erro tem nas práticas psicológicas. Segundo McIntyre, a psicologia contemporânea logrou grande impacto cultural na sociedade, tendo tido menos sucesso ao interpretar o mundo do que ao mudá-lo. Na visão deste filósofo, a operação de mudança da mentalidade determinada pela psicologia manifesta-se, sobretudo, em dois aspectos: a psicologia difunde um novo modo de conhecimento de si mesmo e impõe novos modelos prescritivos acerca do que seria a subjetividade. Estes efeitos culturais colaboram para a criação de um novo tipo de cultura (Koch, 1992).”

Conforme Massimi, além da influência positivista embutida na psicologia moderna e na contemporânea, outra causa que justifica as críticas acima – no que diz respeito à concepção das relações entre psicologia e cultura – seria “a proposição de uma inadequada visão de cultura, restrita na interpretação racionalista e idealista”:

“O filósofo austro-italiano R. Guardini (1995) aponta que o conceito de cultura na Idade Moderna foi identificado com a elaboração e a realização de projetos civilizatórios – produtos de determinados modos de ação e fazeres humanos implicados na construção de sua própria existência. Deste modo, a partir do século XVI, a palavra cultura veio a ser identificada com o termo civilização (…) A raiz desta concepção é uma determinada modalidade de entender a razão e o saber como autônomos, ou seja, desvinculados de raízes externas e que se colocam como pontos de vista exteriores à realidade e capazes de determiná-la, planejando aquilo que a realidade deve ser e de certo modo, construindo-a.”

Nesse sentido, pondera a autora, a própria ideia de “cultura” (cunhada no ocidente) seria passível de uma abordagem desnaturalizante, com a qual se avaliaria o seu sentido e o seu efeito de realidade, pois:

“Como a cultura é algo que o homem faz e também o instrumento que usa para fazer-se e para fazer o outro, ela é civilizadora. Cultura, então, é uma visão do mundo, um projeto, um planejamento que certa sociedade humana elabora. Propõe uma representação de si mesmo e do mundo e critérios normativos da ação. Portanto, que também se impõe sobre os outros, justificando-se assim a dominação do projeto mais poderoso sobre os demais”.

A autora então se propõe buscar uma concepção de cultura mais adequada, menos etnocêntrica, diríamos, para uma relação construtiva entre psicologia e cultura. Qual seja, “cultura como expressão de uma comunidade humana em busca da verdade”. Apoiando-se em Ratzinger, a autora propõe que se pode entender cultura como:

“"a forma de expressão comunitária, desenvolvida historicamente, que marca com seu cunho os conhecimentos e valores da vida de uma comunidade” (Ratzinger, 2007, p. 59). Assim, como também, “uma tentativa de entender o mundo e nele a existência do homem, não puramente teórica, mas dirigida pelo interesse fundamental de nossa existência” (Ratzinger, 2007, p. 59)".

Massimi convoca também a filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975):

Arendt remete-se ao significado etimológico original da palavra latina, cuja raiz é o verbo colere, que significa cultura, habitar, cuidar, criar e preservar, sendo originalmente associado às atividades da agricultura e ao cultivo da terra. Ela lembra, porém, que já Cícero aplica o termo ao cuidado da alma, utilizando-se da expressão excolere animum ou cultura animi.”

Considerando essa concepção abrangente, porque não dizer “holística”, de cultura, Massimi defende que “há maneiras de significar os fenômenos psíquicos específicas de uma determinada cultura e que podem ser iguais ou diferentes em outras.” E conclui:

“Portanto, o âmbito dos saberes e das práticas psicológicas não compreende apenas os significados que a ciência (a psicologia científica) atribui aos fenômenos psíquicos, mas também o conjunto de significados que as diversas culturas dão a tais fenômenos.”

Ou seja, as ciências positivas, surgidas no ocidente, seriam algumas das diversas outras formas de pesquisar e produzir conhecimentos; formas que são relativas e pertinentes às culturas onde se originam – não sendo as ciências as únicas ou mais importantes práxis (verdadeiras) delas. Nesse sentido, as culturas seriam responsáveis por formar e informar a vida psíquica e seus saberes relativos. Ainda mais, numa mesma cultura poderiam conviver diversas tradições de pesquisas, sendo que cada uma possuiria padrões próprios de raciocínio e crenças fundamentais. E a racionalidade de cada tradição seria sempre “fundada no pertencer a comunidades particulares e não numa concepção de razão cartesianamente ou hegelianamente entendida.” Em consonância com MacIntyre, a autora sinaliza a importância de:

“articular a racionalidade de cada tradição de pesquisa com o tipo particular de comunidade que a gera – levando-se em conta que todo fundador ou sistematizador de tradição de pesquisa é historicamente situado e membro de uma específica comunidade “estando inevitavelmente envolvido com os conflitos fundamentais da vida histórica dessas comunidades, em épocas e lugares específicos” (McIntyre, 1991, p. 418)”.

Nesse sentido, conclui Massimi:

“o pensamento inerente a cada tradição de pesquisa possui uma história vinculada a formas de vida prática e social, que, inclusive, são por ele incorporadas. Assim, o domínio da teoria e do conceptual não é distinto do reino dos interesses, das necessidades e das formas da organização social. Todo pesquisador é protagonista de uma específica tradição e inicia sua pesquisa a partir da perspectiva que lhe é oferecida pelo passado social e intelectual dela”.

Situando o problema no contexto das culturas e dos saberes psicológicos no Brasil, Massimi esclarece:

“A presença contemporânea [no Brasil] de diversas tradições culturais remete, em seu conjunto, às duas matrizes fundamentais da oralidade e da escrita. Assim, há um primeiro grupo de tradições (próprias das nações indígenas, européias, africanas) elaboradas e difundidas, sobretudo, pela oralidade; e um segundo grupo inerente aos meios letrados, transmitido pela escrita. Esta dualidade marca, ainda hoje, a cultura brasileira e as modalidades de se conceber a vida psíquica e de se cuidar dela.”

E qual o efeito esperado da diversidade cosmológica brasileira no âmbito da psicologia?

“Acreditamos que, no âmbito da psicologia, os significativos desenvolvimentos ocorridos no Brasil, sejam no que diz respeito à pesquisa científica, sejam no que diz respeito às práticas terapêuticas de intervenção, a partir da segunda metade do século XX, não devam ocultar, em sua atuação, a presença de outras matrizes de conhecimento e de cuidados psicológicos. Como também, expressões de uma pluralidade de sujeitos culturais e de comunidades étnicas, que também podem ser capazes de oferecer recursos psicológicos, sejam em termos conceituais, sejam em termos práticos, não devem ser encobertas.”

Massimi finaliza o artigo ratificando a importância de uma psicologia que conceba em seu corpus teórico-prático a imbricação dos diversos saberes gestados na cultura brasileira, para que o conhecimento científico não exclua os demais. Desse modo, poderia a psicologia contribuir “na definição de posições culturais e práticas alternativas à homologação globalizante e tecnicista” da visão de mundo que legitima a ciência moderna, liberando o pensamento e a ação humana, e devolvendo a ela sua liberdade criativa.


segunda-feira

Antropofagia Hoje


"Ainda é possível propor uma releitura da teoria cultural de Oswald de Andrade? Vale a pena (mais uma vez!) reinterpretar a antropofagia? É possível convertê-la numa forma crítica de entendimento da realidade contemporânea? (...)

Ora, se o grande dilema contemporâneo é inventar uma imaginação teórica capaz de processar a vertigem de dados recebidos ininterruptamente, então, a antropofagia oswaldiana pode tornar-se uma alternativa relevante para a redefinição da cultura contemporânea." (Orelha do livro Antropofagia Hoje? Oswald de Andrade em cena, 2011).




Acerca da atualidade da Antropofagia cultural - essa "imaginação teórica da alteridade" - recomendamos a leitura de "Antropofagia Hoje? Oswald de Andrade em Cena", organizado por João Cézar de Castro Rocha.

Veja entrevista com o organizador do livro.