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"Psicologia e cultura na perspectiva histórica"

Resenha: Psicologia e cultura na perspectiva histórica (Marina Massimi, Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto), em: http://migre.me/gTisa. Acesso: 05/12/2013).


O artigo de Marina Massimi parte da premissa que a história dos saberes psicológicos na cultura brasileira, por proporcionar uma melhor fundamentação cultural e social da psicologia, pode contribuir na compreensão da relação entre psicologia e cultura. O seu objetivo é argumentar a favor da “exigência de uma ampliação do que se entende por conhecimento psicológico, não apenas se incluindo neste domínio o saber psicológico de natureza científica, mas também o saber psicológico inerente à cultura”.

Massimi inicia sublinhando a necessidade de esclarecer “de que modo a psicologia contemporânea posiciona-se diante da cultura”. Para tanto, escolhe dois autores que considera marcantes na formação dos psicólogos no Brasil, cujas teorias se constituiriam em perspectivas de referência imprescindíveis para a psicologia atual: Skinner e Freud.

Skinner, segundo a autora, assumiria como pressuposto para sua concepção de cultura o esquema metodológico e a visão de mundo próprios às ciências naturais num determinado período de sua história:

“Assim, é possível entender os processos culturais de modo análogo aos experimentos planejados em laboratório (daqui derivando a categoria de “planejamento cultural”); e também, de acordo com uma concepção determinista na qual existem as variáveis ambientais predispostas pelas agências de controle que constroem, então, a cultura. Desta forma, a cultura é produto fabricado pelas agências de poder – social, político, econômico e religioso –, e, evidentemente, pode ser um instrumento de controle por elas utilizado.”

Nesse contexto, segundo Massimi, para Skinner:

“a ciência (ou menos genericamente, a comunidade científica) e o indivíduo são concebidos como os critérios últimos de juízo. A comunidade dos cientistas é tida como a única instância capaz de um planejamento cultural adequado para garantir a sobrevivência da espécie humana. Desse modo, a posição de Skinner evidencia e realiza o projeto positivista da ciência do homem concebida em bases naturalistas."

No recorte que faz da perspectiva freudiana sobre a cultura, a autora informa que se poderia defini-la, conforme Freud, como “fruto do processo de sublimação dos desejos”. O que significaria:

“... uma definição de cultura elaborada dentro de um referencial e de categorias preconcebidas no contexto da teoria psicanalítica. Ou seja, restritas ao âmbito do discurso psicológico: “a sublimação dos desejos reprimidos” seria, de fato, o dinamismo psíquico (causa) da produção cultural (efeito). Ainda é no âmbito do puro psicológico que se define o que é cultura, sendo que está, ultimamente, subordinada à ciência, à sua linguagem e aos seus métodos.”

Ainda segundo Massimi:

“A relação entre cultura e psicologia é definida por Freud no âmbito de uma concepção da psicanálise como ciência humana determinista. Dessa forma, é com base nas categorias psicanalíticas que Freud propõe-se a explicar a gênese da cultura. Existe aqui uma prioridade implícita: a psicanálise é uma ciência e como tal, cabe-lhe explicar a cultura.”

A autora, portanto, sugere desconfiança quanto à legitimidade da prerrogativa dos discursos psicológicos, segundo ela “científicos” (seria o caso da psicanálise?), de explicar a cultura, o que, por consequência, acarretaria a subordinação desta àquela.

A partir de então, para problematizar o status superior da ciência em relação à cultura, apontando a precedência desta face àquela, alia-se a autora àquele filósofo tido como fundador da fenomenologia, Edmund Husserl (1859-1938). Segundo Massimi, apoiando-se em Husserl, o que estaria em questão não seria a cientificidade das ciências mas “o que as ciências e a ciência em geral significaram e podem significar para a existência humana”. E nesse contexto, o campo dos significados (pertencentes ao âmbito da cultura) precederia o das ciências. E a cultura, pertencente ao mundo-da-vida, que tem vários níveis, englobaria, entre esses, o nível da ciência.

Porém, segundo Massimi, na segunda metade do século XIX, ocorrera uma reviravolta e as ciências positivas teriam passado a determinar a visão de mundo do homem moderno; fato que, segundo a autora, teria implicado em “considerar com indiferença as questões que são decisivas para a autêntica humanidade”:

“As questões que elas [as ciências positivas] excluem por princípio são exatamente aquelas que são as mais urgentes para a nossa época desgraçada cuja humanidade é abandonada aos altos e paixões do destino: são estas as questões que dizem respeito ao sentido ou à ausência de sentido de toda esta existência humana.” (Massimi apud Husserl)

Além de Husserl, Massimi convoca um dos expoentes da Escola de Frankfurt, Max Horkheimer (1895-1973), em sua argumentação crítica quanto “ao enfraquecimento da cultura em prol da afirmação da “razão instrumental” da ciência e da tecnologia – voltadas para o domínio sobre o mundo natural e humano (Modernidade). Segundo Massimi, Horkheimer apontaria para a incapacidade da razão moderna em conceber a totalidade e relacionar-se com ela, o que resultaria na renúncia da verdade:

“A dissociação entre exigências humanas e verdade objetiva modificou os critérios de juízo em todos os campos da existência. (…) Neste sentido, segundo Horkheimer, somente o restabelecimento de um horizonte unitário e global pode curar o adoecimento da humanidade contemporânea. Com efeito, as culturas humanas não podem renunciar à sua universalidade que se sustenta na busca da verdade, sua essência constitutiva. A renúncia à exigência da verdade numa cultura acarretaria seu progressivo enfraquecimento e morte.”

Considerando as duas posições filosóficas supracitadas, Massimi considera urgente “pensar outras modalidades de interação entre psicologia e cultura capazes de superar o erro apontado por Husserl e por Horkheimer”:

“A questão é urgente pelas conseqüências que este erro tem nas práticas psicológicas. Segundo McIntyre, a psicologia contemporânea logrou grande impacto cultural na sociedade, tendo tido menos sucesso ao interpretar o mundo do que ao mudá-lo. Na visão deste filósofo, a operação de mudança da mentalidade determinada pela psicologia manifesta-se, sobretudo, em dois aspectos: a psicologia difunde um novo modo de conhecimento de si mesmo e impõe novos modelos prescritivos acerca do que seria a subjetividade. Estes efeitos culturais colaboram para a criação de um novo tipo de cultura (Koch, 1992).”

Conforme Massimi, além da influência positivista embutida na psicologia moderna e na contemporânea, outra causa que justifica as críticas acima – no que diz respeito à concepção das relações entre psicologia e cultura – seria “a proposição de uma inadequada visão de cultura, restrita na interpretação racionalista e idealista”:

“O filósofo austro-italiano R. Guardini (1995) aponta que o conceito de cultura na Idade Moderna foi identificado com a elaboração e a realização de projetos civilizatórios – produtos de determinados modos de ação e fazeres humanos implicados na construção de sua própria existência. Deste modo, a partir do século XVI, a palavra cultura veio a ser identificada com o termo civilização (…) A raiz desta concepção é uma determinada modalidade de entender a razão e o saber como autônomos, ou seja, desvinculados de raízes externas e que se colocam como pontos de vista exteriores à realidade e capazes de determiná-la, planejando aquilo que a realidade deve ser e de certo modo, construindo-a.”

Nesse sentido, pondera a autora, a própria ideia de “cultura” (cunhada no ocidente) seria passível de uma abordagem desnaturalizante, com a qual se avaliaria o seu sentido e o seu efeito de realidade, pois:

“Como a cultura é algo que o homem faz e também o instrumento que usa para fazer-se e para fazer o outro, ela é civilizadora. Cultura, então, é uma visão do mundo, um projeto, um planejamento que certa sociedade humana elabora. Propõe uma representação de si mesmo e do mundo e critérios normativos da ação. Portanto, que também se impõe sobre os outros, justificando-se assim a dominação do projeto mais poderoso sobre os demais”.

A autora então se propõe buscar uma concepção de cultura mais adequada, menos etnocêntrica, diríamos, para uma relação construtiva entre psicologia e cultura. Qual seja, “cultura como expressão de uma comunidade humana em busca da verdade”. Apoiando-se em Ratzinger, a autora propõe que se pode entender cultura como:

“"a forma de expressão comunitária, desenvolvida historicamente, que marca com seu cunho os conhecimentos e valores da vida de uma comunidade” (Ratzinger, 2007, p. 59). Assim, como também, “uma tentativa de entender o mundo e nele a existência do homem, não puramente teórica, mas dirigida pelo interesse fundamental de nossa existência” (Ratzinger, 2007, p. 59)".

Massimi convoca também a filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975):

Arendt remete-se ao significado etimológico original da palavra latina, cuja raiz é o verbo colere, que significa cultura, habitar, cuidar, criar e preservar, sendo originalmente associado às atividades da agricultura e ao cultivo da terra. Ela lembra, porém, que já Cícero aplica o termo ao cuidado da alma, utilizando-se da expressão excolere animum ou cultura animi.”

Considerando essa concepção abrangente, porque não dizer “holística”, de cultura, Massimi defende que “há maneiras de significar os fenômenos psíquicos específicas de uma determinada cultura e que podem ser iguais ou diferentes em outras.” E conclui:

“Portanto, o âmbito dos saberes e das práticas psicológicas não compreende apenas os significados que a ciência (a psicologia científica) atribui aos fenômenos psíquicos, mas também o conjunto de significados que as diversas culturas dão a tais fenômenos.”

Ou seja, as ciências positivas, surgidas no ocidente, seriam algumas das diversas outras formas de pesquisar e produzir conhecimentos; formas que são relativas e pertinentes às culturas onde se originam – não sendo as ciências as únicas ou mais importantes práxis (verdadeiras) delas. Nesse sentido, as culturas seriam responsáveis por formar e informar a vida psíquica e seus saberes relativos. Ainda mais, numa mesma cultura poderiam conviver diversas tradições de pesquisas, sendo que cada uma possuiria padrões próprios de raciocínio e crenças fundamentais. E a racionalidade de cada tradição seria sempre “fundada no pertencer a comunidades particulares e não numa concepção de razão cartesianamente ou hegelianamente entendida.” Em consonância com MacIntyre, a autora sinaliza a importância de:

“articular a racionalidade de cada tradição de pesquisa com o tipo particular de comunidade que a gera – levando-se em conta que todo fundador ou sistematizador de tradição de pesquisa é historicamente situado e membro de uma específica comunidade “estando inevitavelmente envolvido com os conflitos fundamentais da vida histórica dessas comunidades, em épocas e lugares específicos” (McIntyre, 1991, p. 418)”.

Nesse sentido, conclui Massimi:

“o pensamento inerente a cada tradição de pesquisa possui uma história vinculada a formas de vida prática e social, que, inclusive, são por ele incorporadas. Assim, o domínio da teoria e do conceptual não é distinto do reino dos interesses, das necessidades e das formas da organização social. Todo pesquisador é protagonista de uma específica tradição e inicia sua pesquisa a partir da perspectiva que lhe é oferecida pelo passado social e intelectual dela”.

Situando o problema no contexto das culturas e dos saberes psicológicos no Brasil, Massimi esclarece:

“A presença contemporânea [no Brasil] de diversas tradições culturais remete, em seu conjunto, às duas matrizes fundamentais da oralidade e da escrita. Assim, há um primeiro grupo de tradições (próprias das nações indígenas, européias, africanas) elaboradas e difundidas, sobretudo, pela oralidade; e um segundo grupo inerente aos meios letrados, transmitido pela escrita. Esta dualidade marca, ainda hoje, a cultura brasileira e as modalidades de se conceber a vida psíquica e de se cuidar dela.”

E qual o efeito esperado da diversidade cosmológica brasileira no âmbito da psicologia?

“Acreditamos que, no âmbito da psicologia, os significativos desenvolvimentos ocorridos no Brasil, sejam no que diz respeito à pesquisa científica, sejam no que diz respeito às práticas terapêuticas de intervenção, a partir da segunda metade do século XX, não devam ocultar, em sua atuação, a presença de outras matrizes de conhecimento e de cuidados psicológicos. Como também, expressões de uma pluralidade de sujeitos culturais e de comunidades étnicas, que também podem ser capazes de oferecer recursos psicológicos, sejam em termos conceituais, sejam em termos práticos, não devem ser encobertas.”

Massimi finaliza o artigo ratificando a importância de uma psicologia que conceba em seu corpus teórico-prático a imbricação dos diversos saberes gestados na cultura brasileira, para que o conhecimento científico não exclua os demais. Desse modo, poderia a psicologia contribuir “na definição de posições culturais e práticas alternativas à homologação globalizante e tecnicista” da visão de mundo que legitima a ciência moderna, liberando o pensamento e a ação humana, e devolvendo a ela sua liberdade criativa.