1.
Levado pelas mãos de Afonso Arinos de Melo Franco fui reencontrar
Montaigne (1533-1592), humanista do século XVI que acreditava que
“filosofar é aprender a morrer”. Eis alguns aspectos do ensaio
“Dos Canibais” (coleção Os Pensadores, Ed. Nova Cultural, 1996), onde discorre a
respeito dos povos canibais da América do Sul, ou França Antártica,
como chamara Villegaignon.
2. Logo nas primeiras páginas me veio à lembrança a Velha Tatajuba, no litoral cearense, que inspirou o filme “As Vilas Volantes”, do diretor Alexandre Veras (http://www.vimeo.com/15441169). Ali, as dunas movediças tangem as pessoas de lugar em lugar, de tempos em ventos:
“Na região de Médoc, junto ao mar, tem meu irmão, Sr. de Arzac, uma de suas terras enterradas sob as areias que o mar lhe vai jogando em cima. Os telhados de algumas habitações se vêem ainda e essa propriedade e suas culturas transformaram-se em bem magras pastagens. Dizem os habitantes que de uns tempos para cá avança o mar tão rapidamente que já perderam quatro léguas de terras. Essas areias são seus arautos; como uma espécie de dunas movediças precedem-no de cerca de meia légua e conquistam insensivelmente a região” (p. 194).
Por recente, conheci a Nova Tatajuba, e a Natureza se nos impõe como sinal gratuito do sagrado na experiência. Lá conversávamos, numa manhã nascitura, sobre isto que a cidade não pode nunca nos dar...
“Não há razão para que a arte sobrepuje em suas obras a natureza, nossa grande e poderosa mãe. Sobrecarregamos de tal modo a beleza e riqueza de seus produtos com as nossas invenções, que a abafamos completamente. Mas onde permaneceu intata e se mostra como é realmente, ela ridiculariza nossos vãos e frívolos empreendimentos: 'a hera cresce ainda melhor sem cuidados; o medronheiro nunca se apresenta tão belo como nos antros solitários e o canto dos pássaros é assim tão suave porque natural' [Propércio]. (…) Todas as coisas, disse Platão, produzem-nas a natureza ou o acaso, ou a arte. As mais belas e grandes são frutos das duas primeiras causas; as menores e mais imperfeitas, da última”. (p. 195, 196).
3.
Uma lição que os modos de vida indígenas nos legou foi o fato de
se ocuparem em produzir apenas o suficiente para viver. Os
civilizados do Ocidente, por contrário, temos escolhido cultivar a
avareza em detrimento da simplicidade. Diz-nos Montaigne que a moral
dos canibais se resumia em dois pontos: valentia na guerra e afeição
por suas mulheres.
“Lamento
que Licurgo e Platão não tenham ouvido falar delas, pois sou de
opinião que o que vemos praticarem esses povos, não somente
ultrapassa as magníficas descrições que nos deu a poesia da idade
de ouro, e tudo o que imaginou como suscetível de realizar a
felicidade perfeita sobre a terra, mas também as concepções e
aspirações da filosofia. Ninguém concebeu jamais uma simplicidade
natural elevada a tal grau, nem ninguém jamais acreditou pudesse a
sociedade subsistir com tão poucos artifícios. (…) Não entram em
conflito a fim de conquistar novos territórios, porquanto gozam
ainda de uma uberdade natural que sem trabalhos nem fadigas lhes
fornece tudo de que necessitam e em tal abundância que não teriam
motivo para desejar ampliar suas terras. Têm ademais a felicidade de
limitar seus desejos ao que exige a satisfação de suas necessidades
naturais, tudo o que as excede lhes parecendo supérfluo”.
(196-200)
4. Os traços com os quais Montaigne caracteriza o informante que retornara do Novo Mundo e forneceu-lhe as informações, em contraste com “pessoas dotadas de finura”, apresenta, de forma emblemática, os elementos que circunscrevem o (já ultrapassado?) imbróglio da fidedignidade epistemológica do discurso etnográfico: objetividade versus subjetividade.
“O
homem que tinha a meu serviço, e que voltava do Novo Mundo, era
simples e grosseiro de espírito, o que dá mais valor sobre o seu
testemunho. As pessoas dotadas de finura observam melhor e com mais
cuidado as coisas, mas comentam o que vêem e, a fim de valorizar sua
interpretação e persuadir, não podem deixar de alterar um pouco a
verdade. Nunca relatam pura e simplesmente o que viram, e para dar
crédito à sua maneira de apreciar, deformam e ampliam os fatos. A
informação objetiva nós a temos das pessoas muito escrupulosas ou
muito simples, que não tenham imaginação para inventar e
justificar suas invenções e igualmente que não sejam sectárias”
(p. 194, 195).
5.
Por fim, ilustra-nos com clareza o que seria a dogmática e ingênua
“visão etnocêntrica”, ao argumentar seu desacordo a chamarem
bárbaros ou selvagens a esses povos recém encontrados, vivendo de
par com a Natureza:
“... não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos; e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra. E é natural, porque só podemos julgar da verdade e da razão de ser das coisas pelo exemplo e pela ideia dos usos e costumes do país em que vivemos” (p. 195).