terça-feira

Conceitos de doença

Alceu Maynard Araújo conclui o penúltimo capítulo do livro Medicina Rústica, “Conceitos e Teoria”*, tratando do "conceito de doença" nas artes da medicina popular. Segundo o autor, vário é o conceito da doença na comunidade em que pesquisou. Há os que consideram a feitiçaria a sua causa, a sua explicação. Outros acreditam que a doença revelaria, no fundo, uma insegurança pessoal.

Para uns ela é o que de estranho foi pôsto no corpo, é algo de imaterial, para outros são humores, isto é, um líquido mau, outros um calorão como se fôra fogo, produzindo febre, bem como existem os que acreditam que ela seja oriunda de micróbios.

Há os que acreditam que a doença é oriunda do pecado. Praticou-se algo que quebrou um determinado código de moral, consequentemente a doença é um castigo de Deus. Castigo que para muitos tem função purificadora. D. Yayá, era muito má, judiava muito de seus enteados, ficou no fundo da cama durante vários anos e quem cuida dela é justamente uma enteada.

Há os pobres coitados caídos em desgraça e a doença é para afligir-lhes, padecem na terra, mas irão gozar no céu. Para muitos a doença é uma provação. Fêz alguma cousa má na terra, terá que passar por uma provação expiatória. A velha Mariquinhas era muito faladeira, teve um câncer na língua.

(…)

A doença é por alguns encarada como uma forma de santificação (…) Os informantes ressaltam o valor do sofrimento como elemento purificador e de ter dado poderes mágicos, excepcionais”.

Araújo, em sua argumentação, deixa-nos entrever, embora não cite, a arqueologia empreendida por Michel Foucault no livro História da Loucura, corroborando com a crença de que a própria ideia de “doença mental” seria histórica e cultural, portanto, arbitrária e afeita ao contexto em que surge: “A civilização condiciona a forma de doença mental de maneira tal que os sintomas serão diferentes em sociedades diferentes, daí certos traços da cultura facilitarem não só a manifestação, mas a própria sublimação”.

Conclui o autor dando notícia e fiança quanto à função do mito na tradição oral, como se exercesse um fim “terapêutico”:

Os mitos então saciam uma manifestação de tendências psicológicas, de impulsos sublimados, válvulas de escapamento de suas tendências psicológicas.

O mito não se compreende bem fora daquela sociedade – forma de manifestação, de impulso condicionado por aquela sociedade. O mito se fixa porque traduz a manifestação dos seus impulsos e as proibições do mundo exterior, porque interpreta com grande riqueza de conteúdo psicológico.

Aquela forma de narrar apontada, quando se estabelece também a transmissão oral, folclórica portanto do mito, é uma oportunidade para se gastar nela o impulso de quem conta e também de quem ouve, o que é uma forma catártica” (pp. 262-63).


* ARAÚJO, Alceu Maynard. Medicina Rústica. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1961.