Durante a pesquisa que resultou no livro Medicina Rústica*, Alceu Maynard Araújo percebeu o alto status
social que possuía o profissional da medicina popular, e o respeito que
se emprestava a curandeiros, benzedores e “benzinheiras”,
curadores de cobras, doutores de raízes ou presidentes do toré, em Piaçabuçu.
Haveria uma aura de simpatia a envolver esses profissionais. Eram tratados com certa deferência, o que revelaria “ser a prática da
medicina rústica um fator de distinção social”:
“Na verdade, as práticas do
candomblé, do toré, das romarias, criam normas de relações
sociais, bem como nasce com elas a diferenciação social por causa
das funções específicas: curador de cobras, doutor de raízes,
curandeiro, 'benzinheira', 'assistente', escultor de ex-votos ou
'milagreiro' como são chamados tais artistas populares que se
especializam em preparar ex-votos de madeira ou barro” (p. 255).
Observou Araújo que os conselhos
dados por um benzedor passavam além das raias da medicina, atingindo
outros domínios culturais. Por exemplo, encabeçavam “certas
festinhas 'batalhões' (ajuda vicinal no trabalho rural)”.
Como agiam para ter tal 'status'?,
pergunta-se o autor. Em princípio, segundo ele, estariam na linhagem da
transmissão oral do ofício determinado: “Pelo fato de ser filho
de antigo benzedor ou 'benzinheira', herdou tal habilidade, ou por
estar em contato com tais, passou a praticar aquelas rezas,
benzimentos e práticas que lhes foram ensinados” (p. 256).
Porém, concorreria também, para o privilégio da função, o aperfeiçoamento e o cuidado de si:
Porém, concorreria também, para o privilégio da função, o aperfeiçoamento e o cuidado de si:
“Do curandeiro, benzedores e
outros, são exigidas qualidades positivas, por isso precisam
aperfeiçoar-se. A maneira de agir é vigiada pela comunidade e
aquele que passar a praticar a magia negra decairá no conceito, no
consenso geral. Então, não apenas precisa obter qualidades que o
aperfeiçoem, bem como 'fechar todas as possibilidades de fazer
qualquer cousa pelas esquerdas, o mal-feito'” (p. 256).
A idade e o adestramento teriam
papel definitivo na profissão. O raizeiro jovem seria, no mais das vezes, preterido com relação ao mais velho. De onde conclui Araújo haver
uma forma de “gerontocracia” na sociedade, devido a importância
dos mais velhos na estrutura social.
Para se ter ideia do “tipo de
homem” que é o profissional da
medicina rústica, Araújo caracteriza o dirigente do toré, seu Artur
Ferreira da Cruz:
“Anda bem barbeado, roupa sempre
limpa, não bebe cachaça e é uma das poucas pessoas da cidade que
usa chapéu de feltro, sinal de distinção. Gentilhomem, não apenas
com os que se acercam de sua banca de bugigangas na feira, mas no
trato quotidiano e com aquêles que rodeiam sua 'piana' lá na rua do
Socorro, no bairro da Coréia. Só o vimos zangado e chegou mesmo a
ser ríspido, quando nós, inadvertidamente apanhamos uma fôlha de
juremeira no quintal de sua casa onde funcionava o toré. Mais tarde,
porém, no dia de nossa partida para São Paulo, quando já havíamos
nos tornado amigos e frequentado seu toré por várias vêzes,
defumados que fomos por êle, ofertou-nos u'a muda de juremeira que
devia ser plantada em nossa casa para defesa dela. 'O dia que eu
aparecer por São Paulo, disse Artur, quero ver a minha lembrança lá
na sua casa', foi a sua recomendação”. (p. 258)
Ainda a respeito de seu Artur, diz o
autor que é admirado e respeitado por causa de seu
comportamento; e a frase que se ouve é “o 'Pernambucano' é um
homem limpo”. Disse-lhe ainda um informante: “Êle [Artur] não
faz nada pela esquerda, nem que paguem a maior fortuna do mundo, o
trabalho dêle é só pela direita, para o bem e nunca para o mal”
(p.258).
Cita também o caso de uma
benzinheira, D. Olindina, “que tem um mundão de afilhados”:
“É a 'assistente' mais procurada.
Não só a idade provecta que é digna de atenções, mas a sua
maneira lhana de tratar, a sua permanente boa vontade, grangearam-lhe
um 'status' social ímpar na comunidade. É respeitada e a sua
palavra é 'a última palavra', como afirmam. Até há pouco, quando
não existia médico na 'cidade' as parturientes das melhores
famílias locais chamavam-na. Para os casos difíceis, para os partos
complicados, ainda é D. Dindinha quem dá a solução”. (p. 259)
Para se ter ideia dos cuidados envolvidos nas artes da cura em medicina popular, o autor relata a respeito das proibições no trabalho da benzedura, próprio das mulheres:
“A mulher após a menopausa é que
pode realizá-lo com segurança. Acreditam que no período do
catamênio a mulher tem irradiação negativa. Assim é que nesse
período não visitam uma criança recém-nascida, não vão à
missa, não entram no cemitério, há enfim uma série de proibições”
(p. 259).
Conta ainda o caso de uma dona Cecília,
que recusou-se benzer a filha caçula de D. Sinhá pois, naquele dia, segundo ela, tudo sairia ao contrário, pois estaria "nos seus tempos”:
“Mulher 'com boi', incomodada até para estreiar panela nova de
barro quando vai pela primeira vez ao fogo, não presta, ela racha e
então para benzer, dá tudo para traz” (p. 260).
No caso dos homens, há proibições quanto à relação sexual:
“O raizeiro relatou que, quando
aparece uns casos difíceis, precisa 'não se chegar à mulher para
não estragar as fôrças para o trabalho'. Egon Schaden afirma que
entre os guarani a abstenção sexual por parte do médico da tribo é
frequente. Não afirmaríamos que tal preceito entre os médicos da
medicina rústica seja uma influência ameríndia, porque o próprio
celibato dos padres é também uma forma mágica, para ter maiores
fôrças para lidar com as cousas da religião. No candomblé, há
também para o iniciando, um período de abstenção sexual” (pp.
260-61).
* ARAÚJO, Alceu Maynard. Medicina Rústica. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1961.