sábado

os medicamentos do espírito

Resenha: Roudinesco, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
Primeira Parte: A sociedade depressiva
Capítulo 2: Os medicamentos do espírito (pp. 21-31)


“A partir de 1950, as substâncias químicas – ou psicotrópicos – modificaram a paisagem da loucura (…) Embora não curem nenhuma doença mental ou nervosa, elas revolucionaram as representações do psiquismo, fabricando um novo homem, polido e sem humor, esgotado pela evitação de suas paixões, envergonhado por não ser conforme ao ideal que lhe é proposto”.


Segundo Roudinesco, os psicotrópicos receitados, tanto por clínicos gerais quanto pelos especialistas em psicopatologia, teriam o efeito de normalizar comportamentos e eliminar os sintomas mais dolorosos do sofrimento psíquico, sem, no entanto, buscar-lhes a significação.

A autora pondera que, a princípio, a redoma medicamentosa inventada pela psicofarmacologia deu ao homem uma recuperação da liberdade. Permitiram a reintegração do louco na cidade, os tratamentos bárbaros e ineficazes teriam sido abandonados, bem como, aos neuróticos e deprimidos, trouxeram uma tranquilidade maior. Entanto, apesar da sua impressionante eficácia, a psicofarmacologia teria perdido seu prestígio:

“Na verdade, ela encerrou o sujeito numa nova alienação ao pretender curá-lo da própria essência da condição humana. Por isso, através de suas ilusões, alimentou um novo irracionalismo. É que, quanto mais se promete o “fim” do sofrimento psíquico através da ingestão de pílulas, que nunca fazem mais que suspender sintomas ou transformar uma personalidade, mais o sujeito, decepcionado, volta-se em seguida para tratamentos corporais ou mágicos”. (p. 22).

Roudinesco, para denunciar os excessos da psicofarmacologia, reproduz citações de psiquiatras que outrora a enalteceram mas que hoje reivindicam que os remédios da mente sejam administrados de maneira mais racional e em coordenação com outras formas de tratamento, como a psicanálise e a psicoterapia. Cita Jean Delay, principal representante francês da psiquiatria biológica que, em 1956, teria afirmado: “Convém lembrar que, em psiquiatria, os medicamentos nunca são mais do que um momento do tratamento de uma doença mental, e que o tratamento básico continua a ser a psicoterapia”. Outro, Henri Laborit, inventor desses medicamentos, teria dito:

“Por que ficamos contentes por dispor de psicotrópicos? Porque a sociedade em que vivemos é insuportável. As pessoas não conseguem mais dormir, ficam angustiadas e necessitam ser tranquilizadas, mais nas megalópoles do que noutros lugares (…) Sem os psicotrópicos, talvez tivesse havido uma revolução na consciência humana, dizendo: 'Não podemos mais suportar isso!' Mas foi possível continuar a suportá-lo, graças aos psicotrópicos.” (p. 23)

Apesar dessas constatações, a psicofarmacologia teria se tornado, segundo a autora, o “estandarte de uma espécie de imperialismo”. Através da psicofarmacologia, os médicos estariam tratando psicoses, neuroses, fobias, melancolias e depressões de maneira indiscriminada, “como um punhado de estados ansiosos, decorrentes de lutos, crises de pânico passageiras, ou de um nervosismo extremo, devido a um ambiente difícil”. Daí que os psicotrópicos, conforme Édouard Zarifian, seriam o “símbolo da ciência triunfante”, simbolizando “a vitória do pragmatismo e do materialismo sobre as enevoadas elucubrações psicológicas e filosóficas que tentavam definir o homem”.

E o que a “ideologia medicamentosa” das sociedades democrático-liberais modernas desejaria debelar? Justo traços constitutivos e essenciais da própria condição humana: a angústia, o conflito, o luto, a tristeza, a desilusão...:

“Nos países democráticos, tudo se passa como se já não fosse possível haver nenhuma rebelião, como se a própria ideia de subversão social ou intelectual se houvesse tornado ilusória, como se o conformismo e o higienismo próprios da nova barbárie do biopoder* tivessem ganho a partida. Daí a tristeza da alma e a impotência do sexo, daí o paradigma da depressão”. (p. 25)

Considerando que “a reivindicação de uma norma prevaleceu sobre a valorização do conflito”, a autora passa a demonstrar como a psicanálise vem perdendo sua força de subversão após haver contribuído, “ao longo do século XX, não apenas para a emancipação das mulheres e das minorias oprimidas, mas para a invenção de novas formas de liberdade”. Roudinesco relembra que foi atribuído a uma mulher, Anna O., e não a um cientista, a invenção do método psicanalítico: “um tratamento baseado na fala, um tratamento em que o fato de se verbalizar o sofrimento, de encontrar palavras para expressá-lo, permite, se não curá-lo, ao menos tomar consciência de sua origem e, portanto, assumi-lo”.

Entretanto, apesar de sua potência de subversão, e considerando que o medicamento em si não se opõe a um tratamento pela fala, a psicanálise estaria sendo colocada em concorrência com a farmacologia; sendo utilizada, ela mesma, como uma pílula. E se isto ocorre, segundo Roudinesco, seria porque “os próprios pacientes, submetidos à barbárie da biopolítica, passaram a exigir que seus sintomas psíquicos tenham uma causalidade orgânica.” (p. 29)

Nesse contexto, a própria medicina também estaria respondendo ao paradigma da depressão, contribuindo assim para romper a essência da vida humana:

“Entre o medo da desordem e a valorização de uma competitividade baseada unicamente no sucesso material, muitos são os sujeitos que preferem entregar-se voluntariamente a substâncias químicas a falar de seus sofrimentos íntimos. O poder dos remédios do espírito, portanto, é o sintoma de uma modernidade que tende a abolir no homem não apenas o desejo de liberdade, mas também a própria ideia de enfrentar a prova dele. O silêncio então passa a ser preferível à linguagem, fonte de angústia e vergonha”. (p. 30)

Nesse estado de coisas, nem os médicos escapariam. Muitos deles não estariam em melhores condições do que seus pacientes: “Inquietos, insatisfeitos, atormentados pelos laboratórios e impotentes para curar, ou, pelo menos, para escutar uma dor psíquica que os transcende cotidianamente, parecem não ter outra solução senão atender à demanda maciça de psicotrópicos”.

"Quem se atreveria a culpá-los?", conclui Roudinesco.


* Michel Foucault deu o nome de biopoder a uma política que pretende governar o corpo e a mente em nome de uma biologia erigida em sistema totalizante, e que assume o lugar da religião. Ver Michel Foucault, “É preciso defender a sociedade”, in Resumo dos cursos do Collège de France (1970-1982), Rio de Janeiro, Zahar, 1997. (N. A.)