Primeira
Parte: A sociedade depressiva
Capítulo
2: Os medicamentos do espírito (pp. 21-31)
“A
partir de 1950, as substâncias químicas – ou psicotrópicos –
modificaram a paisagem da loucura (…) Embora não curem nenhuma
doença mental ou nervosa, elas revolucionaram as representações do
psiquismo, fabricando um novo homem, polido e sem humor, esgotado
pela evitação de suas paixões, envergonhado por não ser conforme
ao ideal que lhe é proposto”.
Segundo
Roudinesco, os psicotrópicos receitados, tanto por clínicos gerais
quanto pelos especialistas em psicopatologia, teriam o efeito de
normalizar comportamentos e eliminar os sintomas mais dolorosos do
sofrimento psíquico, sem, no entanto, buscar-lhes a significação.
A
autora pondera que, a princípio, a redoma medicamentosa inventada
pela psicofarmacologia deu ao homem uma recuperação da liberdade.
Permitiram a reintegração do louco na cidade, os tratamentos
bárbaros e ineficazes teriam sido abandonados, bem como, aos
neuróticos e deprimidos, trouxeram uma tranquilidade maior. Entanto,
apesar da sua impressionante eficácia, a psicofarmacologia teria
perdido seu prestígio:
“Na
verdade, ela encerrou o sujeito numa nova alienação ao pretender
curá-lo da própria essência da condição humana. Por isso,
através de suas ilusões, alimentou um novo irracionalismo. É que,
quanto mais se promete o “fim” do sofrimento psíquico através
da ingestão de pílulas, que nunca fazem mais que suspender sintomas
ou transformar uma personalidade, mais o sujeito, decepcionado,
volta-se em seguida para tratamentos corporais ou mágicos”. (p.
22).
Roudinesco,
para denunciar os excessos da psicofarmacologia, reproduz citações
de psiquiatras que outrora a enalteceram mas que hoje reivindicam que
os remédios da mente sejam administrados de maneira mais racional e
em coordenação com outras formas de tratamento, como a psicanálise
e a psicoterapia. Cita Jean Delay, principal representante francês
da psiquiatria biológica que, em 1956, teria afirmado: “Convém
lembrar que, em psiquiatria, os medicamentos nunca são mais do que
um momento do tratamento de uma doença mental, e que o tratamento
básico continua a ser a psicoterapia”. Outro, Henri Laborit,
inventor desses medicamentos, teria dito:
“Por
que ficamos contentes por dispor de psicotrópicos? Porque a
sociedade em que vivemos é insuportável. As pessoas não conseguem
mais dormir, ficam angustiadas e necessitam ser tranquilizadas, mais
nas megalópoles do que noutros lugares (…) Sem os psicotrópicos,
talvez tivesse havido uma revolução na consciência humana,
dizendo: 'Não podemos mais suportar isso!' Mas foi possível
continuar a suportá-lo, graças aos psicotrópicos.” (p. 23)
Apesar
dessas constatações, a psicofarmacologia teria se tornado, segundo
a autora, o “estandarte de uma espécie de imperialismo”. Através
da psicofarmacologia, os médicos estariam tratando psicoses,
neuroses, fobias, melancolias e depressões de maneira
indiscriminada, “como um punhado de estados ansiosos, decorrentes
de lutos, crises de pânico passageiras, ou de um nervosismo extremo,
devido a um ambiente difícil”. Daí que os psicotrópicos,
conforme Édouard Zarifian, seriam o “símbolo da ciência
triunfante”, simbolizando “a vitória do pragmatismo e do
materialismo sobre as enevoadas elucubrações psicológicas e
filosóficas que tentavam definir o homem”.
E
o que a “ideologia medicamentosa” das sociedades
democrático-liberais modernas desejaria debelar? Justo traços
constitutivos e essenciais da própria condição humana: a angústia,
o conflito, o luto, a tristeza, a desilusão...:
“Nos
países democráticos, tudo se passa como se já não fosse possível
haver nenhuma rebelião, como se a própria ideia de subversão
social ou intelectual se houvesse tornado ilusória, como se o
conformismo e o higienismo próprios da nova barbárie do biopoder*
tivessem ganho a partida. Daí a tristeza da alma e a impotência do
sexo, daí o paradigma da depressão”. (p. 25)
Considerando
que “a reivindicação de uma norma prevaleceu sobre a valorização
do conflito”, a autora passa a demonstrar como a psicanálise vem
perdendo sua força de subversão após haver contribuído, “ao
longo do século XX, não apenas para a emancipação das mulheres e
das minorias oprimidas, mas para a invenção de novas formas de
liberdade”. Roudinesco relembra que foi atribuído a uma mulher,
Anna O., e não a um cientista, a invenção do método
psicanalítico: “um tratamento baseado na fala, um tratamento em
que o fato de se verbalizar o sofrimento, de encontrar palavras para
expressá-lo, permite, se não curá-lo, ao menos tomar consciência
de sua origem e, portanto, assumi-lo”.
Entretanto,
apesar de sua potência de subversão, e considerando que o
medicamento em
si
não se opõe a um tratamento pela fala, a psicanálise estaria sendo
colocada em concorrência com a farmacologia; sendo utilizada, ela
mesma, como uma pílula. E se isto ocorre, segundo Roudinesco, seria
porque “os próprios pacientes, submetidos à barbárie da
biopolítica, passaram a exigir que seus sintomas psíquicos tenham
uma
causalidade orgânica.” (p. 29)
Nesse
contexto, a própria medicina também estaria respondendo ao
paradigma da depressão, contribuindo assim para romper a essência
da vida humana:
“Entre
o medo da desordem e a valorização de uma competitividade baseada
unicamente no sucesso material, muitos são os sujeitos que preferem
entregar-se voluntariamente a substâncias químicas a falar de seus
sofrimentos íntimos. O poder dos remédios do espírito, portanto, é
o sintoma de uma modernidade que tende a abolir no homem não apenas
o desejo de liberdade, mas também a própria ideia de enfrentar a
prova dele. O silêncio então passa a ser preferível à linguagem,
fonte de angústia e vergonha”. (p. 30)
Nesse
estado de coisas, nem os médicos escapariam. Muitos deles não
estariam em melhores condições do que seus pacientes: “Inquietos,
insatisfeitos, atormentados pelos laboratórios e impotentes para
curar, ou, pelo menos, para escutar uma dor psíquica que os
transcende cotidianamente, parecem não ter outra solução senão
atender à demanda maciça de psicotrópicos”.
"Quem
se atreveria a culpá-los?", conclui Roudinesco.
* Michel
Foucault deu o nome de biopoder a uma política que pretende governar
o corpo e a mente em nome de uma biologia erigida em sistema
totalizante, e que assume o lugar da religião. Ver Michel Foucault,
“É preciso defender a sociedade”, in Resumo dos cursos do
Collège de France (1970-1982), Rio
de Janeiro, Zahar, 1997. (N. A.)