sexta-feira

epistemologia à brasileira



Epistemologia da Ciência não seria um assunto fácil se abordado apenas do ponto de vista dos clássicos, por exemplo: Bachelard (1884-1962), Popper (1902-1994), Canguilhem (1904-1995), Foucault (1926-1984). No terceiro semestre do curso de psicologia utilizamos, a guisa de introdução, os conhecidos textos de Hilton Japiassu em “Introdução ao pensamento epistemológico”. E bordamos o campo com textos que tratam os problemas relativos à legitimidade dos conhecimentos científicos de modo oblíquo, ou num campo híbrido; hibridismo que em verdade seria o mote originário da própria epistemologia: a distinção entre ciência e saber.


Optamos por uma história social das artes e ofícios de curar no Brasil, uma coletânea de artigos publicada pela Editora da Unicamp, resultantes de “pesquisas recentes sobre práticas de cura no Brasil, do século XVII ate o início do século XX”, vinculadas ao Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (CECULT / IFCH-Unicamp). Servindo-nos do capítulo “Medicinas Secretas: magia e ciência no Brasil setecentista”, conversamos a respeito das “medicinas secretas” do século XVIII, que “eram remédios singulares cujos componentes não se revelavam”, e seus protagonistas: barbeiros e sangradores, curandeiros e pajés, boticários e receitistas, que, sempre ao lado de cientistas, literatos e médicos, disputavam a legitimidade social de suas práticas e discursos a partir de diferentes concepções de doença e saúde aos pacientes. Falamos ainda da “magia natural”, e da apropriação dos aspectos mais tradicionais da alquimia pela visão científica do mundo, até chegar aos pressupostos que orientam a nosografia dos distúrbios mentais segundo o modelo biomédico científico.

Alternamos as discussões com a problematização poética de Michel Serres em “Filosofia Mestiça”, com suas contundentes críticas à razão moderna: “Real ou imperial, quem detém o poder só encontra de fato, no espaço, obediência à sua potência, portanto, à sua lei: o poder não se desloca. E, quando o faz, avança sobre um tapete vermelho. Assim, a razão só encontra a sua regra debaixo dos seus pés”. Em sua parábola “Laicidade”, com que abre o referido livro, Serres desnuda a pretensão do rei Arlequim que, de volta de uma inspeção às terras lunares, informa a um público na expectativa de grandes extravagâncias, que nada há de novo nos lugares extraordinários que visitou: “em toda parte tudo é como aqui, em tudo idêntico ao que se pode ver comumente sobre o globo terráqueo”. O rei, uma metáfora da ciência e da razão, não tolera as misturas, as “impurezas” das experiências que ponham em cheque seu poder soberano. Entanto, provocado por “algum belo e maldoso espírito” na platéia, Arlequim é obrigado a mostrar sua capa, “feita de pedaços, de trapos de todos os tamanhos, mil formas e cores variadas, de idades diversas, de proveniências diferentes, mal alinhavados, justapostos sem harmonia, sem nenhuma atenção às combinações, remendados segundos as circunstâncias, à medida das necessidades, dos acidentes e das contingências”. E tanto mais é fustigado pela platéia, mais se despe e nunca chega ao último traje. “Quando cai o último véu, diz-nos Serres, o segredo se liberta, tao complicado como o conjunto de barreiras que o protegiam. Até mesmo a pele de Arlequim desmente a unidade pretendida por suas palavras. Também ela é um casaco de Arlequim”.

Sem dúvida, metáfora adequada à situação esquizo, não apenas das ciências em geral, quanto da psicologia científica em particular. Desde as origens composta por discursos e práticas oriundos de lugares diversos, que foram (e continuam) convergindo num patchwork identificado como “Psicologia”, o que este campo assume como próprio é justo sua mestiçagem (entre práticas, discursos e processos de subjetivação).

O rei está nu. Agora Pierrô desvendado e entregue sem defesa à intuição (M. Serres). E estamos certos de que tudo cala, frente ao fato de que o rei é mais bonito nu (C. Veloso).