Resenha:
Roudinesco, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar,
2000.
Primeira
Parte: “A sociedade depressiva”
Capítulo
1: “A derrota do sujeito” (pp. 12-20)
“Por
que consagrar tanto tempo ao tratamento pela fala quando os remédios,
ao agirem diretamente sobre os sintomas das doenças mentais e
nervosas, dão resultados mais imediatos?”. Lendo essas palavras,
pode-se entrever, já na orelha do livro de Elisabeth Roudinesco –
a famosa historiadora e psicanalista francesa, articulista do Monde
des Livres; pode-se
entrever o umbigo ao redor do qual se desfiará a primeira parte de
“Por que a psicanálise?”.
Com
a expressão “a sociedade depressiva” feito rótulo, Roudinesco
lança um diagnóstico sobre o ar do tempo, sobre o “hoje
em dia...”,
na primeira parte do livro. Com o objetivo claro de proclamar uma
defesa à psicanálise, segundo ela “tão violentamente atacada
hoje em dia pelos que pretendem substituí-la por tratamentos
químicos, julgados mais eficazes porque atingiram as chamadas causas
cerebrais das dilacerações da alma”; Roudinesco deve enfrentar um
rosário de questões candentes – entre outras, os aspectos sociais
e políticos que emolduram a permanente tensão entre práticas
culturais e discursos e práticas científicas quanto à legitimidade
de suas existências no campo dos “saberes da alma”.
Segundo
a autora, o “sofrimento psíquico manifesta-se atualmente sob a
forma da depressão (…) essa estranha síndrome em que se misturam
a tristeza e a apatia, a busca da identidade e o culto de si mesmo”.
Nesse contexto, o homem deprimido não acreditaria mais na validade
de nenhuma terapia. No entanto, prosseguiria, antes de rejeitar todos
os tratamentos, na busca desesperada para vencer o vazio de seu
desejo. Passaria de uma ciência a outra “sem se dar tempo de
refletir sobre a origem de sua infelicidade”, pois já não teria
tempo para nada, “à medida que se alongam o tempo de vida e do
lazer, o tempo do desemprego e o tempo do tédio. O indivíduo
depressivo sofre ainda mais com as liberdades conquistadas por já
não saber como utilizá-las”.
Apesar
da reivindicação individualista da diferença nas sociedades
liberais e democráticas, quando se trata das prescrições
farmacológicas e dos comportamentos ligados ao sofrimento psíquico,
diz Roudinesco:
“Cada
paciente é tratado como um ser anônimo, pertencente a uma
totalidade orgânica. Imerso numa massa em que todos são criados à
imagem de um clone, ele vê ser-lhe receitada a mesma gama de
medicamentos, seja qual for o seu sintoma. Ao mesmo tempo, no
entanto, busca outra saída para o seu infortúnio. De um lado,
entrega-se à medicina científica, e de outro, aspira a uma terapia
que julga mais apropriada para o reconhecimento de sua identidade”.
(p. 14)
Ainda
se ocupando com um diagnóstico do presente (ressalte-se que a
primeira edição, francesa, data do ano de 1999), ou, mais
precisamente com a autora, da “sociedade democrática moderna”,
Roudinesco afirma que tal sociedade pretenderia “banir de seu
horizonte a realidade do infortúnio, da morte e da violência”,
bem como tentaria “abolir a ideia de conflito social”, em nome da
globalização e do sucesso econômico. Teríamos passado da era do
confronto para a “era da evitação”:
“Emancipado
das proibições pela igualdade de direitos e pelo nivelamento de
condições, o deprimido deste fim de século é herdeiro de uma
dependência viciada do mundo. Condenado ao esgotamento pela falta de
uma perspectiva revolucionária, ele busca na droga ou na
religiosidade, no higienismo ou no culto de um corpo perfeito o ideal
de uma felicidade impossível”. (p. 19)
Considerando
esse estado de coisas feito pano de fundo a autora extrai um
princípio constitutivo das concepções de norma e patologia em
voga: “...todo indivíduo tem o direito e, portanto, o dever de não
mais manifestar seu sofrimento, de não mais se entusiasmar com o
menor ideal que não seja o do pacifismo ou o da moral humanitária”.
Segundo
a autora, com a valorização dos processos psicológicos de
normalização, a imagem de subjetividade característica do advento
das sociedades democráticas, que teria sido imaginarizada pelo
constructo freudiano do aparelho psíquico – segundo o qual um
sujeito imerso no inconsciente, dilacerado por uma consciência
pesada, entregue a suas pulsões pela morte de Deus, sempre em guerra
consigo mesmo –, tal imagem de sujeito está em franco
desaparecimento. Essa ideia de subjetividade, baseada no confronto
permanente entre o mesmo e o outro, tenderia a se apagar da
organização mental contemporânea “em prol da noção psicológica
de personalidade depressiva”.
A
situação descrita acima sugere, para Roudinesco, a substituição
do paradigma da histeria para o da depressão (forma atenuada da
antiga melancolia), com a seguinte significação social:
“O
crescente sucesso dessa designação [depressão] deixa bem claro que
as sociedades democráticas do fim do século XX deixaram de
privilegiar o conflito como núcleo normativo da formação
subjetiva. Em outras palavras, a concepção freudiana de um sujeito
do inconsciente, consciente de sua liberdade, mas atormentado pelo
sexo, pela morte e pela proibição, foi substituída pela concepção
mais psicológica de um indivíduo depressivo, que foge de seu
inconsciente e está preocupado em retirar de si a essência de todo
conflito”. (p. 19)
Segundo
a autora, às vésperas do terceiro milênio a depressão teria se
tornado a epidemia psíquica das sociedades democráticas, “ao
mesmo tempo que se multiplicam os tratamentos para oferecer a cada
consumidor uma solução honrosa”. E conclui:
“Mas,
que medicamentos do espírito será preciso inventar, no futuro, para
tratar da dependência dos que se houverem “curado” de seu
alcoolismo, seu tabagismo ou algum outro vício (o sexo, a comida, o
esporte etc.), substituindo um abuso por outro?”. (p. 20)